Revista
VEJA, 1713 de 15 de Agosto de 2001
Parcial
Transcrição:
Devo, não nego, mas também não pago
O governo
briga para cobrar das empresas 126 bilhões de reais

Marcelo
Carneiro
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Tanque da
ENGESA, a empresa de Whitaker (à dir.) que já foi líder da
indústria bélica: falência e dívida de 1,8 bilhão de
reais |
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| No auge do
regime militar, uma empresa comandada por um civil era a menina-dos-olhos
do Exército brasileiro. A ENGESA, uma das cinco maiores fabricantes de
material bélico do mundo, enchia de orgulho o peito dos generais. Nos
tempos de vacas gordas, quando chegou a exportar 400 milhões de dólares ao
ano, o empresário José Luiz Whitaker Ribeiro, dono da ENGESA, viajava para
o Oriente Médio para fechar contratos a bordo de um jatinho |
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apelidado de
"Tapete Voador", com dezesseis camas, bar e mesa de jogos. Não raro,
levava uma comitiva de ministros e altas patentes militares. Hoje, falida,
a companhia não produz sequer uma bala de revólver, mas ostenta uma dívida
espetacular: 1,8 bilhão de reais pendurados na conta do governo. Sua
trajetória é um retrato perfeito de como o dinheiro público pode ir para o
ralo.
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O calote da
ENGESA é um caso singular, especialmente pelas histórias que ilustram o
excessivo grau de intimidade entre uma empresa privada e o governo. Em
1992, já afundada em uma dívida que beirava os 500 milhões de dólares, a
companhia quase foi estatizada, com a ajuda providencial do Exército. O
fato curioso é que 80% desse débito estava no colo de dois órgãos estatais
de financiamento – o Banco do Brasil e o BNDES. Ou seja, a estatização era
uma manobra para enterrar ainda mais dinheiro público na empresa de
Whitaker. Pelo menos 100 milhões de dólares foram injetados pelo governo
na ENGESA, como antecipação pela compra de 1.000 carros de combate que nunca saíram da prancheta.
A idéia de estatização não foi à frente, mas a dívida da ENGESA só fez
crescer. Menos de dois anos depois, quando até a luz já havia sido
cortada, foi decretada a falência, que se arrasta até hoje.
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O usineiro
Inojosa, que deve 50 milhões de reais: "A culpa é
do governo"
Selmy Yassuda |
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| Um grupo de empresários de Alagoas que comanda usinas de
açúcar e álcool já percebeu que terá de entregar parte do vasto patrimônio
para saldar um calote que dura mais de dez anos. A dívida, registrada em
nome da Cooperativa dos Produtores de Açúcar e Álcool de Alagoas, teve
início em 1984 e atualmente alcança 534 milhões de reais. Nessa época, os
empresários conseguiram um empréstimo no exterior e apresentaram como
fiador o Banco do Brasil. Não honraram a dívida, mas o BB não fez feio.
Pagou o débito pelos usineiros e até hoje o governo enfrenta idas e vindas
nos tribunais para recuperar o dinheiro jogado fora. Em março deste ano,
os empresários ofereceram como garantia de pagamento do papagaio vários
imóveis registrados em nome das usinas.
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A Justiça alagoana, talvez
escaldada com o estilo usineiro de negociação, exigiu a comprovação em
cartório da posse dos bens.
Juntos, os
usineiros brasileiros devem mais de 5 bilhões de reais, quase 5% do total
da dívida espetada pelas empresas no governo. Só Antônio Inojosa, dono da
Usina do Outeiro, no Estado do Rio, tem uma dívida de 50 milhões de reais.
Inojosa, de 75 anos, comandou a Cooperativa Fluminense por mais de duas
décadas, mas diz que os empresários não têm nenhuma responsabilidade sobre
as dívidas. "A culpa é do governo. Eles estimularam a produção, mas não
investiram em irrigação. Daí a quebra", defende-se o empresário, que
apesar das dívidas é dono de terras na Bahia e no Rio de Janeiro.
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Manifestações
contra a Encol, do empresário Pedro Paulo de Souza: mais de 10 000
ações na Justiça e rombo de 580 milhões de
reais
Claudio Rossi
e Orlando Brito |
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| A Encol,
também falida, enfrenta mais de 10.000 ações na
Justiça por todo o país, incluindo as execuções fiscais patrocinadas pela
União Federal. Só com o governo, o calote alcança 580 milhões de reais.
Nessa conta entra um pouco de tudo que uma empresa pode fazer para
arrancar dinheiro do governo, especialmente sonegação de impostos e
empréstimos, muitos empréstimos. Parece incrível, mas, quando até o mais
ingênuo dos mutuários já sabia que um apartamento da Encol era um
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investimento de altíssimo risco, os bancões oficiais continuavam
enterrando dinheiro na construtora. No Banco do Brasil, a Encol tinha
crédito ilimitado. Um empréstimo de 100 milhões de reais teve como
avalista o próprio dono da construtora, Pedro Paulo de Souza. Mais: mesmo
com um papagaio de 120 milhões pendurado no INSS, a empresa continuou a
receber dinheiro público, o que é proibido por lei. A chance de essa
dinheirama retornar aos cofres públicos é mínima. |
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| Recuperar o
dinheiro gasto com os caloteiros, mesmo que apenas uma parte, significaria
um alívio de caixa para qualquer governo. O problema é que essa é uma
tarefa hercúlea. Nos últimos sete anos, a União conseguiu recuperar algo
perto de 23 bilhões de reais. É uma façanha e tanto, levando-se em conta
que em todo o país há pouco mais de 700 procuradores da Fazenda, e nem
todos atuam na área de cobrança. A própria Procuradoria estima que hoje
cada procurador tenha sob sua responsabilidade cerca de 30.000 processos. Em alguns Estados, os computadores
não estão conectados à internet, o que torna o acompanhamento das ações
uma peregrinação sem fim aos fóruns. |
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