Jornal da Tarde, 26 de agosto de 2000

Fiel Transcrição:
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DIÁRIO DA CAMPANHA
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Tuma na terra de Marlboro

Outras lembranças, além do Incor, poderiam vir a constranger Romeu Tuma nesta campanha e uma delas ainda está muito viva nas páginas dos jornais, mas aparentemente já meio esquecida na memória fraca do eleitor. O nome do senador apareceu muito próximo ao do juiz Lalau, aquele do prédio superfaturado do Tribunal Regional do Trabalho. E o do filho dele, o deputado Robson Tuma, em acusações envolvendo mafiosos do narcotráfico.

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NIRLANDO BEIRÃO

Esta coluna sabe de gente que está adorando a campanha de Romeu Tuma na tevê por razões que pouco têm a ver com suas ideias para o futuro da cidade. Há aquela delícia morena, por exemplo, que anuncia a redenção de São Paulo com a intimidade que só aquele xis cumprido dos cariocas lhe dá. Todo o casting feminino da coligação PMDB-PFL, aliás, é caprichado e eu até ousaria ver o dedo da Elite Models na escalação de um time que bate um bolão de fazer inveja ao escretezinho do Luxemburgo.

Mas, fora da tevê, e por méritos próprios, o político que prefere se dizer xerife pode estar produzindo o primeiro movimento tectônico de razoável gradação na escala Richter da eleição para a Prefeitura. Tuma botou a estrela no peito e passou a defender as cores do malufismo light. Enquanto o original se supera, com raios e trovões, na linha do prendo-e-arrebento, o ex-delegado do DOPS faz na política o figurino torturador bonzinho, aquele que arranca as confissões com punhos de renda e boas maneiras.

Tuma é de uma gentileza só, sempre pronto para um afago nos seus rivais. Não discrimina nos elogios, aspergindo-os tanto sobre a cabeça de Marta Suplicy, a candidata de um partido cujo líder ele trancafiou na cadeia durante o regime 

fardado, quanto sobre seu antigo chefe, Fernando Collor, o presidente que deu a ele o posto de policial número l do País. A estrela que Tuma quer mostrar tem duas faces: a da dureza e a da simpatia.

Entrou na campanha à sombra de uma dúvida. Seu coração andou fraquejando, um ano atrás. Mais do que o check-up que seu staff jura que ele fez, o atestado médico que Tuma parece querer exibir está no palanque. Ali, ele dança, canta e sapateia - e ainda aguenta, com solicitude olímpica, toda aquela esfuziante felicidade do Netinho, do Negritude Jr. No corpo-a-corpo, já encarou o sopão da favela e virou páreo para Luiza Erundina, loba da periferia, na disputa pela quilometragem de campanha rodada.

A bordo de uma estrela que - mostra o épico filmete eleitoral - foi cunhada nas forjas de um porão sombrio, o xerife visita seu faroeste com aquele ar melancólico de John Wayne que chega a Tombstone. Candidato na terra de Marlboro, quem sabe ele não se aventure a ir domar algum garrote bravio este fim de semana, na festa do peão de Barretos. Tuma encara todas.

Anda tão seguro Romeu Tuma em relação ao seu nível de fitness que até evitou passar pelo Incor, sábado passado, quando da inauguração da nova ala do hospital. Tuma já foi cliente e tinha convite. Além de tudo, talvez lhe conviesse participar de uma cerimônia em que pontificou o cacique de sua tribo, o senador Antônio

Carlos Magalhães. Tuma pretextou uma caminhada e deixou para lá - melhor que o vejam hoje numa favela do que num reduto de enfartados. De mais a mais, a presença de ACM não foi inútil, diz o staff de Tuma. Ele aproveitou para gravar, rapidinho, uma mensagem de apoio ao candidato do pefelê.

Outras lembranças, além do Incor, poderiam vir a constranger Romeu Tuma nesta campanha e uma delas ainda está muito viva nas páginas dos jornais, mas aparentemente já meio esquecida na memória fraca do eleitor. O nome do senador apareceu muito próximo ao do juiz Lalau, aquele do prédio superfaturado do Tribunal Regional do Trabalho. E o do filho dele, o deputado Robson Tuma, em acusações envolvendo mafiosos do narcotráfico.

Segundo testemunha de quem participou da primeira reunião de trabalho de Tuma com sua equipe de tevê, ele bateu na mesa:

- Não estou aqui para ficar me defendendo. Não se defende e nem - até agora - é atacado. Em algum momento, será. Ai é hora de testar o humor do delegado. Por via das dúvidas, Tuma mantém os quatro Tuminhas à distância.

Ajuda a ele ter, pelo mix de siglas, o horário gratuito com maior visibilidade. Isso é bom, mas também poderia ser - na linguagem de Tuma - um tiro pela culatra. Quem anda de fato ajudando o senador, ainda que contra a vontade, é Paulo Maluf, vizinho dele no loteamento ideológico da lei-e-ordem. Um marqueteiro intimo de Paulo Maluf (e que anda trafegando, acreditem, ainda que discretamente, pelo território do PT) diz que a grande novidade da atual campanha é que o malufismo rachou.

Pelos cálculos desse profissional de eleições, os 15% que Maluf tem nas pesquisas é daqueles incondicionais, "do tipo que morre abraçado com ele". Mas há dois tipos dos eleitores que já votaram em Maluf (e, nunca é demais lembrar, em seu factóide Celso Pitta) e que, nesta eleição, relutam em votar. O desiludido - assegura o consultor desta coluna - não vota mais. O decepcionado pode ser até que ainda vote, mas está difícil.

Com jeitão de caubói solitário, Tuma se apresenta para fazer o serviço. Tem uma coisa, porém, que nosso John Wayne do subúrbio precisa saber. Os inimigos dele não estão emboscados atrás da porta do saloon ou na janela do hotel. São aqueles mesmos capazes de receber o xerife em casa, na aldeia do PFL-PMDB, com flores e aplausos. Cidadãos exemplares que, no dilema entre matar e morrer, conseguem ser rápidos no gatilho ao desferir um tiro pelas costas. Se quiser se prevenir, Tuma deve - como ele aprendeu na Academia de Policia - cobrir a retaguarda.

Acusações: "FRASES" da campanha