As Proezas de um delegado da época das torturas!!!

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Estado de São Paulo, 18 de outubro de 1992

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HISTÓRIA

Militância de Severo preocupava Dops

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O ex-ministro, que fez parte do governo Geisel, começou a ser vigiado após deixar a Arena.

Visão sobre privatização

Severo Gomes, em palestra no Mackenzie: 'Controle privado do possível, controle estatal do necessário'.

Fiel Transcrição:

ROLDÃO ARRUDA

Foto: AE

Em 1977, quando se demitiu do cargo de ministro da Indústria e Comércio, no governo do general Ernesto Geisel, o empresário Severo Gomes mereceu uma distinção da polícia política de São Paulo: ganhou uma pasta com o seu nome, no imensa arquivo do extinto Dops. Daquele ano, quando ainda militava na Arena, até sua eleição para o Senado, pelo PMDB, no final de 1982, o ex-ministro teve seus passos seguidos por policiais.

No período de cinco anos, acumularam-se na pasta de Severo Gomes quase 80 páginas de relatórios datilografados por informantes policiais. Pelo menos foi isso o que a Policia Federal repassou, no início deste ano, para o Arquivo do Estudo, da Secretaria da Cultura, depois de manter o material sob sua custódia por quase dez anos.

Os relatórios são mal redigidos e repletos de inutilidades. Em páginas e páginas, o ex-ministro, morto dias atrás num acidente aéreo, é apenas citado em listas de nomes. Mas o trabalho policial acaba favorecendo Severo: de tão citado, ele emerge dali como uma figura dinâmica, capaz de fazer palestras e participar de debates públicos várias vezes numa semana, em pontos diferentes do País, batendo na tecla da redemocratizaçâo.

Em Santos O último documento colocado na pasta leva a data do dia 9 de novembro de 1982. É um relatório de duas páginas, enviado pela sucursal do Dops em Santos, sobre uma palestra do ex-ministro para estudantes de direito, 12 dias antes.

O informante santista reproduz o seguinte trecho da palestra: "Vivemos um período de violentas transformações, marcado pela vontade de organização independente dos sindicatos, do movimento negro e outros grupos. São sinais do renascimento de uma nação." A visão do ex-ministro sobre a privatização aparece no relato de outro informante, presente a uma palestra na Universidade Mackenzie.

O policial anotou: "Controle privado do possível, controle estatal do necessário." O problema da distribuição da renda ficou registrado na transcrição de uma entrevista de Severo à Radio Eldorado, em julho de 1979: "Na cidade de São Paulo existem duas Biafras e uma Suíça."

Tuma—Ao lado do ex-ministro aparece, com frequência, o senador Teotônio Vilela, que havia trocado a Arena pelo MDB, em 1979. No dia  25 de setembro de 1979, o chefe

 do Dops, o delegado Romeu Tuma, enviou um telex ao SNI e aos serviços de espionagem do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, para informar o seguinte: naquele dia seria realizado na PUC de São Paulo, um debate sobre partidos políticos. Tuma ainda registrou que Severo e Vilela participariam.

O telex era desnecessário. Cartazes espalhados pela cidade anunciavam o debate. Alguns destes cartazes estão na pasta do ex-ministro. Também encontram-se lá folhetos de sua campanha ao Senado, em 1982.

Houve ocasiões em que Severo foi seguido. Um documento do dia 12 de dezembro de 1979, registra, que ele esteve na Editora Abril, na Marginal do Tietê, entre llh40' e 12h45'. A placa de seu carro e de outros dois que o seguiam foram anotadas.

Da Editora Abril, ele dirigiu-se à sua residência, na rua Monte Alegre, onde esteve das 13h30' às 15h15'. O relato prossegue dia afora, com observações deste tipo:

"Os jornalistas não almoçaram na residência do ex-ministro."

Ex-ministro autorizou pesquisa

O acesso ao material da. pasta de Severo Fagundes Gomes (1924-1992), nos arquivos do Dops, assim como sua divulgação, foi autorizada, por escrito, pelo próprio ex-ministro.

De acordo com as leis do País sobre arquivos públicos, o acesso à pasta de uma pessoa só pode ser feito diretamente por ela, ou com sua autorização. Qualquer cidadão pode solicitar isso. Se a pessoa estiver morta, o parente mais próximo é quem autoriza. Um exemplo: para publicar, semanas atrás, o material do Dops sobre o presidente Jânio Quadros, o Estado teve que pedir à filha Dirce Tutu Quadros. Tempos atrás, o repórter Roldão Arruda procurou o ex-ministro e pediu-lhe uma autorização para investigar o material sobre ele. A resposta foi rápida.

Severo não sabia se tinha uma pasta no arquivo do Dops, mas também não escondia a curiosidade. Na autorização escreveu: "Autorizo o jornalista a acessar a minha ficha pessoal, eventualmente existente nos arquivos do Dops".

O ex-ministro não pediu para ler o material antes de ser publicado, nem impôs qualquer restrição. É esse o material que o Estado divulga hoje.

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Revista Afinal, 27 de agosto de 1985

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Proezas do delegado

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Tuma prende Buscetta, desvenda o caso Mengele e ganha fama internacional. 'Só não venceu a máfia do INAMPS'

Fiel Transcrição:

Durante o trabalho, o delegado Romeu Tuma prefere receber em pé as pessoas que vão ao seu gabinete. E costuma andar em torno de sua mesa, sempre abarrotada de papéis e de vários aparelhos telefônicos e eletrônicos, como um rádio-transmissor usado para comandar centenas de policiais. É diante dele que Tuma se transforma no "Delta Master" — código que identifica para os subordinados o superintendente da Polícia Federal em São Paulo, durante as grandes operações.

Nos últimos 12 meses, duas dessas operações projetaram o nome de Romeu Tuma no cenário internacional: os casos do mafioso Tomaso Buscetta e do nazista Josef Mengele.

Pela competência na investigação de casos como esses e pela firmeza com que dirige seus comandados, Romeu Tuma conseguiu manter-se em destaque mesmo após duas mudanças de

governo. Diretor do DOPS (unidade paulista de repressão política) desde 1977, foi chamado pelo Palácio do Planalto para ser o superintendente da Polícia Federal quando o PMDB assumiu o Governo de São Paulo, em 1983. Levou não só os arquivos do órgão desativado como vários funcionários de sua equipe e conseguiu suportar no cargo a forte oposição de muitos setores políticos.

O delegado teve de enfrentar novo período turbulento quando se instalou a Nova República, mas seu desempenho no combate ao tráfico de drogas e ao contrabando acabou aplacando eventuais rancores antigos. E dos últimos grandes casos comandados por Delta Master, apenas o das fraudes contra a Previdência Social ainda não apresentou os resultados esperados. "É a pior das Máfias", diz o delegado Tuma, "mas ainda chegaremos lá".

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