|
trabalhos de rua deveria acarretar
punições drásticas e exemplares.
Em suma, pouco a pouco, passando do espanto à indignação, poderia insinuar-se na mente do leitor a idéia de que a culpa da mendicância é dos mendigos mesmo e que eles, como os narcotraficantes, os
perueiros, os ambulantes e os assaltantes, formam a corja responsável pela violência nas cidades, e que, indefesos, os cidadãos não têm outro caminho senão os gastos privados com segurança.
Sem direitos
No entanto, prosseguindo em sua meditação, o leitor poderia pensar que o "flanelinha" começou a trabalhar aos cinco anos de idade, que trabalha de domingo a domingo, não tem
seguro-desemprego, férias, aposentadoria, décimo-terceiro e que, se ficar doente, não ganha um único tostão.
Poderia também pensar que, se as criancinhas tivessem creches e as crianças maiores tivessem escola com merenda, banho e material escolar, dificilmente as mães as alugariam para esmolar. E que, se a mãe ou o pai tivessem um emprego decente e um salário decente, a criança não trabalharia nas madrugadas e não seria o "mendigo 24 horas". Talvez pudesse pensar que, se há controvérsia sobre o valor de US$ 100 para o salário mínimo, então uma secretária, ganhando menos do que isso, acabaria mesmo indo para a mendicância.
Se chegasse a essa conclusão, talvez fosse levado a uma constatação: o neoliberalismo, ao desmantelar o sistema produtivo e uma economia com ênfase no mercado interno, destruiu as formas de organização, luta e participação política dos trabalhadores e, ao privatizar os direitos sociais, sob a forma de serviços prestados por terceiros ou pela iniciativa privada, despolitizou a sociedade civil e deslocou para a mendicância e a delinquência milhões de pessoas que, outrora, seriam ativistas de movimentos sindicais, sociais e populares, lutando e conquistando direitos econômicos, sociais, políticos e culturais. Pensaria, então, que a fome de uns e o medo de outros, o crime organizado, de um lado, e a desmontagem do Estado, de outro, tecem a violência, a insegurança e o horror contemporâneos.
Cegos i tragédia
Essa constatação talvez pudesse levar o leitor a uma interrogação: partindo-se do princípio de que o presidente da República e seus ministros não são monstros morais, que projeto político possuem que lhes permite ficar alheios ao que se passa no país? Que compromissos, alianças e submissões os deixam cegos para a tragédia de milhões de pessoas, particularmente crianças e adolescentes, despojados de todos os direitos e percebidos (com ou sem razão) como ameaça e perigo para os demais?
E, sobretudo, considerando-se o que se passa na Áustria, o leitor poderia indagar se a omissão, a cegueira deliberada e o desprezo pela massa dos deserdados não é a semeadura para a colheita do fruto neonazista.
|
Marilena Chaui é professora do departamento de filosofia da
USP, autora de "A Nervura do Real" (Companhia das Letras) c "Cultura e Democracia"
(Cortez), entre outros livros. Ela escreve mensalmente na seção •Brasil SOO d.C", da Folha.
|
|