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Impunidade
"...o
major pára-quedista Álvaro de Souza Pinheiro, 41 anos, é
considerado um herói, pelo Exército, porque atuou ‘com
bravura’ num combate do qual saiu ferido. (...) É que Álvaro,
atualmente servindo no Estado-Maior do IV Exército, em Recife, faz
parte da reduzida galeria de oficiais e suboficiais condecorados por
seu comportamento na guerra que as Forças Armadas moveram, entre
1972 e 1974, contra 69 guerrilheiros que o Partido Comunista do
Brasil (PC do B) enviou para as matas da região sul do Estado do
Pará – um conflito que o Exército não reconhece como guerra e
que procura minimizar como operação contra ‘bandos’
armados.
Internamente,
além de reconhecer e agraciar os feridos, o Exército honrou os
compromissos militares com os ‘mortos em combate’- doze,
segundo apurou Isto é, ou ‘um pouco mais’, segundo
o coronel da reserva Sebastião Rodrigues de Moura, o ‘major Curió’,
que fez seu nome combatendo a guerrilha do Araguaia. (...) ...um
sargento de nome Barros, lotado no Destacamento de Forças Especiais
da Brigada Pára-quedista, que em 1973 levou um tiro na cabeça e
engrossou a relação dos mortos do Exército no Araguaia. O corpo foi
entregue à família, no Rio de Janeiro, num caixão lacrado e a
explicação de que ele se acidentara numa manobra de treinamento no
Sul do país. (...)" 52
"Brilhante
Ustra, 53 anos, tornou-se conhecido pelos presos políticos como ‘Doutor
Tibiriça’. Um dia era elegante, bom, uma flor; em outros,
desfigurava-se, gritava e dizia: hoje é meu dia, conta o
deputado José Genoíno, que apresentou ao Congresso Nacional, no
ano passado, uma lista de agentes dos órgãos de segurança
acusados de torturadores. Quando estava em seus piores dias, o ‘Doutor
Tibiriça’ era capaz de muita brutalidade. Quatro presos políticos
morreram nas dependências do DOI do II Exército, em São Paulo,
entre 1969 e 1973, época em que ele dirigiu a maior central de
repressão política do país. Uma presa política, Criméia
Schmidt, detida em 1972, grávida de sete meses, relata que sofreu
choques elétricos e foi espancada pelo próprio Ustra. Pelas mesmas
sessões também passou a deputada Bete Mendes, que, em agosto do
ano passado, teve um amargo reencontro com seu ex-torturador quando
fazia parte da comitiva de Sarney por ocasião da visita do
presidente ao Uruguai. Ela revelou publicamente que Ustra e Tibiriça
eram a mesma pessoa. O currículo do coronel registra também sua
participação numa frustrada tentativa de golpe contra o governo do
general Ernesto Geisel, em 12 de outubro de 1977, quando o
presidente demitiu o ministro do Exército, general Sylvio
Frota." 64
"No
encontro Nacional das Entidades de Anistia foram citados 252
torturadores, almirantes, generais, brigadeiros ou meros alcagüetes
– uma lista já publicada pela Tribuna da Imprensa.
Os maiores centros de torturas foram no Rio, São Paulo, Rio Grande
do Sul, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Ceará, Pará e Goiás."
66
"A
anistia a pessoas envolvidas na violação dos direitos humanos é
uma medida condenável, pois cria uma impressão de impunidade e de
falta de padrões de conduta claros. Na prática, isso acaba
resultando num estímulo à tortura e outros abusos contra os
direitos humanos. Assim se resume a posição da Anistia
Internacional sobre o assunto, de acordo com o biólogo australiano
James Welsh, 40, coordenador dos grupos médicos do Secretariado
Internacional, em Londres, sede mundial da organização. (...)
Embora
considere um progresso inquestionável o processo de democratização
em vários países da América Latina, Welsh ressalva que nem
sempre isso significou o fim da tortura e das violações aos direitos
humanos. O caso brasileiro apresenta perspectivas de mudança, com
a nova Constituição. Além disso, o governo do presidente José
Sarney, embora tenha assinado, em setembro de 1985, a Convenção da
ONU contra a tortura, não a submeteu ao Congresso para ratificação,
condição para que a adesão se concretize. Em maio de 1986, o secretário-geral
da Anistia Internacional, em visita ao Brasil, constatou, em conversa
com o Ministro da Justiça Paulo Brossard, que o processo estava
perdido em algum ponto dos trâmites burocráticos. (...)
Os
programas médicos da Anistia Internacional surgiram após a reunião
de 1973 em Paris quando, diante de várias denúncias de cumplicidade
de profissionais de saúde com a violação de direitos humanos pelos
governos de diversos países a organização decidiu lançar sua
primeira campanha específica contra a tortura. O primeiro grupo médico
surgiu em Copenhague, capital da Dinamarca, com o objetivo de ajudar
ex-presos a superar o trauma físico e psicológico da tortura e dos
maus tratos na prisão. Desse primeiro núcleo, com nove membros, os
grupos médicos foram se expandindo e contam hoje com cerca de 8 mil
profissionais de saúde – entre médicos, psicólogos, enfermeiros
– em trinta países." 68
"O
sargento Roberto Fábio, acusado por Dickson Grael de ser o autor da
morte de Alexandre Baumgartem, é do Corpo de Pára-quedistas do Exército,
e excelente militar, segundo informaram, ontem, companheiros de
tropa. (...)
Roberto
Fábio foi auxiliar direto do general Hugo Abreu, ex-chefe da Casa
Militar no Governo Geisel, quando comandava a Brigada de Pára-quedistas.
Destacou-se por atos de bravura quando da guerrilha do Araguaia e
Xambioá, indo parar no Conselho de Segurança Nacional do Governo
Geisel. Quando da exoneração de Hugo Abreu, ficou lotado no SNI, graças
às suas qualidades – é excelente atleta, possui todos os cursos de
pára-quedismo, atirador de elite e um dos instrutores do Comando de
Sobrevivência na Selva.
No
final do Governo Figueiredo, pediu transferência para a reserva, como
subtenente." 76
"Está
na hora de acabar com o mistério que ainda envolve a guerrilha do
Araguaia – e o presidente eleito, Fernando Collor de Melo, pode
ter uma contribuição definitiva nesse sentido. É essa a opinião
do tenente-coronel da reserva do Exército Sebastião Curió
Rodrigues de Moura, 55 anos, mais conhecido como major Curió – o
adversário mais ostensivo da guerrilha organizada pelo Partido
Comunista do Brasil no sul do Pará, entre 1972 e 1974. Eu
considero que este é o momento oportuno para relatarmos à nação
o que de fato se passou em Xambioá. Se convocado pelo presidente
Collor de Mello eu vou contar tudo o que sei (...)
Os
livros que estão publicados, por má-fé ou falta de conhecimento,
apresentam uma visão distorcida dos fatos, denegrindo a imagem dos órgãos
de segurança e das Forças Armadas e até a imagem do próprio PC do
B, diz o major. (...) Houve uma ordem para que todos os
documentos fossem incinerados – mas alguma coisa foi salva, coisas
importantes, diz. Entre elas, diários de alguns guerrilheiros,
cartas de outros e, sempre segundo o major, os planos estratégicos
do PC do B. Eu guardei porque já naquela época prejulgava que um dia
isso seria importante.
O
major, é claro, continua o mesmo ferrenho anticomunista que sempre
foi – desde 1961, como tenente, quando foi preso por posicionar-se
contra a posse de João Goulart na Presidência da República, até o
ativo conspirador que foi em 1964 e à condição de quadro do Centro
de Informações do Exército (CIEx) que passou a ostentar desde 1971.
Foi nessa condição que ele atuou no Araguaia – como homem da área
de informações embora admita ter participado de diversos combates
com guerrilheiros.
-
O Sr. matou alguém, major? Matar eu não sei se matei, responde
Curió. Eu combati, troquei tiros na selva, fui atingido por dois
tiros. A guerra é violenta porque você não sabe quem é o inimigo,
onde ele está, de onde vem o tiro e a que horas ele vai ser
disparado. A guerrilha é uma guerra de cão. - desabafa o major,
sem esconder o orgulho por ter sido um dos poucos militares que
combateram depois da Segunda Guerra Mundial. (...) ... revelando que,
à época, durante uma cerimônia militar reservada, o general Orlando
Geisel, então ministro do Exército, concedeu-lhe a mais alta
honraria das Forças Armadas Brasileiras – a Medalha do Pacificador,
com palmas. Sem palmas, muita gente tem. Mas com palmas, são
poucas, orgulha-se. (...)
Eu
não os considero como bandidos ou terroristas. Muitos deles eram
rapazes imbuídos de propósitos patrióticos – embora equivocados.
Eu respeito grande parte deles, mas acho que alguns não merecem
respeito, declara Curió, que no livro anunciado vai traçar o seu
perfil de alguns guerrilheiros, como Dina e Osvaldão, dois dos mais
conhecidos. O major nega peremptoriamente que os militantes do PC do B
mortos no Araguaia tenham tido suas cabeças cortadas – como
dirigentes do partido já chegaram a denunciar. Isso é mentira.
(...)
Houve
mortes dos dois lados, diz. Não compete a mim clarear esses
fatos – e sim à Justiça – mas, como brasileiro eu julgo
importante que os mesmos sejam esclarecidos. (...) Eu acho justo que a
Nação tenha conhecimento de um fato importante ocorrido em território
pátrio." 79
"Até
hoje, o Exército não informou as baixas que sofreu nem quantos
guerrilheiros morreram em combate e quantos foram capturados. O
segredo alimenta a suspeita de que na lista de 59 desaparecidos haja
prisioneiros executados na zona de combate ou levados do Araguaia e
mortos em prisões militares. (...)
Em
1986, Dower retornou ao Araguaia para obter mais informações sobre
os desaparecidos. Em contatos com antigos colaboradores da guerrilha,
soube que o Exército sepultava os guerrilheiros em três cemitérios.
Dois cemitérios ficavam nos acampamentos militares de Bacaba e
Metade. Nesses cemitérios, de acordo com testemunhos que, segundo
Dower tiveram confirmação do general Antônio Bandeira, foram
enterrados Bergson Gurjão Farias e João Haas Sobrinho, na mesma cova
Vicente Lopes e Aurelisa Valadão. Habitantes da região disseram que
os despojos foram levados depois em sacos plásticos por helicópteros.
O
terceiro cemitério localizava-se na floresta da margem esquerda do
Rio Araguaia, na confluência com o Igarapé Xambioazinho. Dower diz
que foi usado na fase de intensificação dos conflitos, quando os
corpos dos guerrilheiros eram decapitados e deixados na floresta. As
cabeças eram levadas para identificação em São Geraldo, base das
tropas, e depois enterradas. Barqueiros disseram ter visto militares
enterrando cabeças em covas cilíndricas abertas sob troncos de
palmeiras babaçu.
Dower
esteve no Igarapé Xambioazinho, mas não conseguiu localizar as covas
onde teriam sido enterradas as cabeças dos guerrilheiros." 80
"As
pastas relativas ao movimento guerrilheiro no Araguaia (sul do Pará),
entre 1972 e 1975, desapareceram dos arquivos do DEOPS-SP assim como
o material sobre o PC do B, patrocinador da guerrilha que deixou um
saldo de 59 desaparecidos. Documentos da Marinha e Aeronáutica também
não foram encontrados no acervo, apenas algumas informações do Exército.
A
falta desse material faz a Comissão de Familiares supor que os
arquivos do Deops não estão intactos como afirmou a Polícia Federal
por ocasião da transferência do acervo para o estado. Alguns
documentos exibidos ontem mostram que as fichas foram utilizadas até
janeiro do ano passado. (...) Para organizar o acervo Adilson Alves não
se mostrou muito animado, estimando que o trabalho levará ‘uns
20 anos’." 96
"As
garantias dadas pelo Diretor Geral da Polícia Federal, Romeu Tuma,
de que os arquivos do extinto Departamento de Ordem Política e
Social (DEOPS) sobre os presos no período de 1912 a 1983, estariam
intactos foram desmentidas pela comissão de familiares de mortos e
desparecidos da ditadura militar, que provou que os documentos foram
enriquecidos de informações datadas de até recentemente, além
disso, constataram a ausência de pastas que estavam catalogadas
numericamente e que o arquivo foi embaralhado propositalmente para
dificultar as consultas dos familiares. Quando procurávamos o
Romeu Tuma e o Marco Antônio Veronesi (superintendente da PF), as
respostas que tínhamos era de que os documentos estavam intactos.
É mentira. Estes documentos eram utilizados até há meses atrás,
inclusive há informações anotadas por eles (PF) de 1990, denunciou
Ivan Seixas, da comissão de familiares dos desaparecidos.(...)
Para
muitos que não conhecem o que aconteceu nos porões da ditadura
militar, estes documentos possuem informações estarrecedoras que vão
chocar. É importante que estes documentos sejam divulgados para que
esta história seja bem contada, e não mais se repita, completou.
Os
documentos são papéis que revelam uma história, um idealismo de moços
e velhos que procuraram instaurar a liberdade no país, continuou
o secretário da Justiça. (...)
Segundo
Ivan, a luta para a abertura dos arquivos do Deops é muito antiga. "Com
o descobrimento da vala clandestina no cemitério de Perus, ficou mais
clara a necessidade de vermos estes documentos. Começamos pelo
arquivo do IML de São Paulo, arquivos da Prefeitura, enquanto isto
alguns estados conseguiam abrir os arquivos do Deops de cada Estado. Só
ficou faltando os arquivos de São Paulo e Rio de Janeiro".
De
acordo com Ivan Seixas, os familiares começaram a pressionar o
Governo Federal, e no ano passado, foi um grupo de pessoas até a Casa
da Dinda. A Polícia Federal queria mandar os arquivos para o Rio, mas
a comissão entrou em contato com o governador do Estado que interviu
e os arquivos foram passados da responsabilidade da Polícia Federal
para a Secretaria da Cultura. (...)
Conforme
denunciou Ivan, há diversas pastas de documentos que não estão no
acervo. Quando abrimos as gavetas do arquivo, vimos que existem
diversas gavetas que foram esvaziadas". (...) Não há pastas
relativas à Marinha e nem à Aeronáutica. Existem algumas apenas do
Exército, garante Ivan.
Ainda
hoje, segundo Criméia de Almeida, a guerrilha ocorrida no Araguaia não
é reconhecida pelo Exército. Todos os que foram mortos neste
conflito são considerados como desaparecidos, pois até hoje não se
tem nenhum documento registrando nenhuma morte, afirma a esposa de
André Grabois, ‘desaparecido’ no sul do Pará. Nas
pesquisas que Criméia realizou, descobriu uma ficha no Deops com a
foto de André, mas com o nome de José Vieira. Até hoje, seu destino
ainda não foi esclarecido." 97
"A
Comissão dos Desaparecidos sustenta que a pesquisa feita nos últimos
meses mostra que sumiram milhares de fichas que tinham sido
preparadas pelos órgãos de repressão da Marinha e da Aeronáutica.
O diretor geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, e o superintendente
regional, Marco Antônio Veronezzi, mentiram descaradamente ao
dizerem que os arquivos nunca foram mexidos, acusa o jornalista
Ivan Seixas, filho de um dos desaparecidos.
A
suspeita é absurda, rebate Veronezzi. Do jeito que o arquivo
foi recebido pela PF, foi restituído ao Estado, sem a supressão de
qualquer documento." 98
"A
Polícia Federal procurará cemitérios clandestinos nos quais o Exército
teria enterrado 31 pessoas desaparecidas durante a guerrilha do
Araguaia, no Sul do Pará. A medida foi anunciada ontem pelo
ministro da Justiça, Maurício Corrêa. As buscas serão feitas na
Fazenda Oito Barracas, no município de São Domingos do Araguaia. A
decisão do ministro não agrada aos militares, como adianta um
oficial ligado ao Alto Comando do Exército.
-
Existe o risco de novas discussões sobre o passado suscitarem na
juventude de hoje o desejo de participar de movimentos semelhantes.
Será que o Estado terá que indenizar as famílias dessas pessoas?
– pergunta, referindo-se à posição de Corrêa, favorável à
indenização.
Durante
o anúncio da operação, Corrêa fez questão de tranqüilizar os
militares.
-
A Polícia Federal vai simplesmente procurar e, se for o caso,
desenterrar e identificar as ossadas, porque é um direito dos
parentes das vítimas. Mas não se trata de nenhum inquérito para
apurar responsabilidades. Não há mais crime, está tudo sepultado
pela anistia – ressalvou." 123
"O
superintendente da Polícia Federal no Pará, delegado Roberto
Porto, apontado como torturador no período da ditadura, será o
responsável pela tarefa de desenterrar as ossadas de prováveis
desaparecidos na Guerrilha do Araguaia sepultados no cemitério de
Oito Barracas, em São Domingos do Araguaia.
Por
determinação do diretor-geral do DPF, os trabalhos para tentar
encontrar os cadáveres de 69 desaparecidos no Araguaia foram
delegados à Superintendência do DPF no Pará e à Secretaria de
Segurança, que devem organizar expedição à região onde o deputado
Haroldo Lima (PC do B/BA) e parentes de desaparecidos descobriram
cemitério clandestino. Suspeita-se que o local foi usado pelas forças
da repressão para sepultar os corpos de pelo menos três
guerrilheiros do PC do B.
O
nome do delegado Roberto Porto consta do livro Brasil: Nunca Mais,
organizado pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São
Paulo, como torturador ... , à época em que atuava como agente na
Superintendência do DPF no Ceará. É lamentável e muito triste,
mas foi essa a solução do ministro Maurício Corrêa, disse Criméia
de Almeida ."124
"...
o ex-deputado Sebastião Moura, o major Curió, embrenhou-se no mato
nas cercanias de Brasília e disparou contra dois adolescentes.
Matou um e feriu outro. O ex-deputado suspeitava que os dois haviam
roubado uma televisão e um radio-relógio de sua chácara e decidiu
caçá-los. Conseguiu, e acrescentou um novo cadáver à sua
biografia, que inclui a participação direta ou indireta em mais de
100 mortes. (...) Foi agente secreto do antigo SNI e combateu na
guerrilha do Araguaia na década de 70. Como major, metido numa
bonita bermuda, defendeu a invasão do Palácio do Planalto para
derrubar o ex-presidente Ernesto Geisel. Tornou-se o rei do garimpo
de ouro em Serra Pelada e se elegeu deputado. No ano passado,
denunciou que o esquema Collor-PC lhe oferecera 120.000 dólares
para sua campanha eleitoral. (...)
Sujeito
normal, ele fez parte da primeira turma de agentes de espionagem
do ex-SNI. Destacado para combater os guerrilheiros do PC do B no
Araguaia, combateu com gosto. Por ordem do SNI, os militantes mortos
eram enterrados, desenterrados e enterrados novamente num lugar
conhecido apenas por Curió e três mateiros – nome dos nativos que
trabalhavam como guias na selva. Mais tarde, Curió abriu três covas
maiores, onde estariam no total sessenta ossadas. Para garantir que o
lugar definitivo dos corpos nunca fosse revelado, Curió fez um pacto
com os três auxiliares: quem revelasse o segredo seria morto pelos
outros. Ele ainda se encontra com seus amigos do Araguaia uma vez por
ano. (...)
No
dia 12 de outubro de 1977, quando o general Sylvio Frota foi demitido
do Ministério do Exército pelo presidente Geisel, Curió foi
escalado por Frota para levar à força, a seu gabinete, os generais
de quatro estrelas que desembarcassem em Brasília. Como era feriado,
foi para o aeroporto de bermuda com quinze agentes armados e só não
seqüestrou os generais porque recebeu uma contra-ordem à última
hora. No final do dia, chegou a sugerir que Frota o autorizasse a
invadir um batalhão de blindados para tomar o Palácio do Planalto.
Até Frota achou a idéia radical. (...)" 125
"Quando
matava apenas guerrilheiros do PC do B, a serviço do Exército, e
cuidava dos garimpeiros de Serra Pelada, o coronel Sebastião Curió
era mesmo um sujeito de prestígio. Tanto que virou nome de município
– Curionópolis – no Sul do Pará.
Depois
que atirou para matar num rapaz de 17 anos – supostamente um ladrão
– em Brasília, a sorte do coronel Curió mudou. O novo prefeito de
Curionópolis, João Chamon Neto, pediu ao TRE do Pará para realizar
um plebiscito. Quer mudar o nome da cidade." {Não conseguiu}126
"O
comandante militar do Norte, general-de-divisão Arnaldo Serafim,
disse que o Poder Executivo não investigará a suposta existência
de cemitérios clandestinos no Sul do Pará onde o Exército teria
sepultado guerrilheiros.
A
informação foi dada ontem à Folha pelo comandante da 23 ª
Brigada de Infantaria da Selva, sediada em Marabá, general Guilherme
Figueiredo, 55." 128
"O
general Luciano Casales, comandante militar do Planalto, ameaçou
ontem queimar os arquivos do antigo Dops de Goiás, que contêm
informações sobre a guerrilha do Araguaia.". 157
"Já
está sob a guarda do Governo de Goiás o arquivo histórico sobre a
guerrilha do Araguaia. A documentação foi entregue ontem à tarde
pela 3a Brigada de Infantaria Motorizada ao secretário
de Segurança Pública do estado, Antônio Lorenzo Filho. O arquivo
foi liberado um dia após determinação dada pelo ministro do Exército
Zenildo Lucena, ao comandante militar Luciano Casales, que ameaçou
incinerar o acervo. O governador Maguito Vilela demonstrou intenção
de tornar pública a documentação. (...)
-
Resta agora, ao governador de Goiás, ter a mesma sensibilidade do
ministro do Exército e colocar as informações à disposição das
famílias e dos historiadores – disse Miranda.
A
polêmica em torno do arquivo surgiu depois que o grupo Tortura Nunca
Mais manifestou interesse em consutá-lo. O general Casales reagiu à
possibilidade, ressaltando que, para ele, entregar o material seria um
crime militar. Valeu-se do regimento interno do Exército, que
autoriza a destruição de documentação sem valor histórico com
mais de cinco anos.
A
ameaça de Casales mobilizou a comissão da Câmara e o Ministério Público,
que protocolou ação na Justiça de Goiás para impedir a destruição
do acervo. Evitando o prolongamento da polêmica, o ministro Zenildo
Lucena reconheceu a importância histórica dos documentos e decidiu
por sua imediata devolução ao governo de Goiás." 158
"João
Figueiredo – chefe do SNI brasileiro de 1974 a 1978, participou
ativamente da troca de informações entre orgãos repressores do
Cone Sul. Presidente de 79 a 85." 257
"Ao
aprofundar as investigações, no entanto, ele acabou descobrindo um
universo mais amplo de atrocidades que, agora, poderá expandir o
caso. Pois é provável que Garzón passe a enquadrar também alguns
militares que naquele período lideraram a repressão política no
Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e na Bolívia.
Garzón
vem reunindo documentos que mostram que, a partir do golpe de Estado
no Chile, os governos desses cinco países – todos sob ditadura
militar – se uniram sob o comando da DINA, o serviço secreto
chileno, numa espécie de ‘Mercosul do terror’. A parceria,
formalizada em 1975, foi denominada Operação Condor, que passou a
ser, nos últimos meses, o principal foco do processo espanhol contra
Pinochet. (...)
A
documentação que Garzón pretende obter deixa claro que Tio Sam
sempre soube dessas manipulações, sendo conivente com elas em nome
de seus próprios interesses. (...)
Martín
Almada desconfia que a Operação Condor ainda não teve um fim.
Documentos mais recentes corroborariam sua tese. Uma correspondência
entre oficiais das Forças Armadas do Equador e do Paraguai, por
exemplo, começava assim: Tenho a satisfação de dirigir-me a você
com o objetivo de remeter a apreciação da situação subversiva do
primeiro semestre de 1997.
Além
disso, ‘a situação da subversão no Brasi’ foi tema, em
1987, já em plena democracia, da XVII Conferência dos Exércitos
Americanos, realizada na Argentina." 257
"O
Brasil teve um papel decisivo no sucesso da Operação Condor.
Documentos confidenciais do Governo americano, já requisitados pelo
juiz espanhol Baltasar Garzón, indicam que a ditadura militar
brasileira era a principal aliada do regime do general Pinochet ‘em
termos de inteligência’. (...)
O
general João Baptista Figueiredo, ex-chefe do Serviço Nacional de
Inteligência (SNI), e que posteriormente se tornaria presidente do
Brasil, foi um dos elementos vitais à coordenação da caçada aos
opositores no Cone Sul, segundo as provas que semanas atrás chegaram
às mãos de Garzón, em Madri.
O
plano proposto por você, para coordenar nossa ação contra certas
autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos social-democratas e
democrata-cristãos da América Latina e Europa, conta com o nosso
decidido apoio, dizia um trecho de uma carta enviada em 28 de
agosto de 1975 a Figueiredo pelo coronel Manuel Contreras, o chefe da
DINA, serviço secreto chileno, o líder absoluto da Operação
Condor.
A
carta é um dos documentos que foram entregues a Garzón no início de
dezembro pelo educador paraguaio Martín Almada, ex-preso político.
Ele foi a Madri depor no processo contra Pinochet e solicitou a inclusão
de Figueiredo nesse pacote, além dos generais Jorge Videla, Emílio
Massera e Leopoldo Galtieri, da Argentina; Gregório Alvarez, do
Uruguai; e Hugo Banzer, da Bolívia. (...)
Em
meio aos papéis levados à Espanha há uma carta do coronel Contreras
a Pinochet, seu superior imediato, com data de 16 de setembro de 1975.
Nela há referências à cooperação brasileira. "Em atenção
à Vossa Excelência, especifico as razões pelas quais considero
indispensável solicitar uma remessa adicional de US$ 60 mil:
-
aumentar
o contingente da DINA no Brasil;
financiamento
para os oficiais da DINA que fazem um curso de preparação
anti-guerrilha no centro de treinamentos de Manaus, no Brasil."
257
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