Impunidade

"...o major pára-quedista Álvaro de Souza Pinheiro, 41 anos, é considerado um herói, pelo Exército, porque atuou ‘com bravura’ num combate do qual saiu ferido. (...) É que Álvaro, atualmente servindo no Estado-Maior do IV Exército, em Recife, faz parte da reduzida galeria de oficiais e suboficiais condecorados por seu comportamento na guerra que as Forças Armadas moveram, entre 1972 e 1974, contra 69 guerrilheiros que o Partido Comunista do Brasil (PC do B) enviou para as matas da região sul do Estado do Pará – um conflito que o Exército não reconhece como guerra e que procura minimizar como operação contra ‘bandos’ armados.

Internamente, além de reconhecer e agraciar os feridos, o Exército honrou os compromissos militares com os ‘mortos em combate’- doze, segundo apurou Isto é, ou ‘um pouco mais’, segundo o coronel da reserva Sebastião Rodrigues de Moura, o ‘major Curió’, que fez seu nome combatendo a guerrilha do Araguaia. (...) ...um sargento de nome Barros, lotado no Destacamento de Forças Especiais da Brigada Pára-quedista, que em 1973 levou um tiro na cabeça e engrossou a relação dos mortos do Exército no Araguaia. O corpo foi entregue à família, no Rio de Janeiro, num caixão lacrado e a explicação de que ele se acidentara numa manobra de treinamento no Sul do país. (...)" 52

"Brilhante Ustra, 53 anos, tornou-se conhecido pelos presos políticos como ‘Doutor Tibiriça’. Um dia era elegante, bom, uma flor; em outros, desfigurava-se, gritava e dizia: hoje é meu dia, conta o deputado José Genoíno, que apresentou ao Congresso Nacional, no ano passado, uma lista de agentes dos órgãos de segurança acusados de torturadores. Quando estava em seus piores dias, o ‘Doutor Tibiriça’ era capaz de muita brutalidade. Quatro presos políticos morreram nas dependências do DOI do II Exército, em São Paulo, entre 1969 e 1973, época em que ele dirigiu a maior central de repressão política do país. Uma presa política, Criméia Schmidt, detida em 1972, grávida de sete meses, relata que sofreu choques elétricos e foi espancada pelo próprio Ustra. Pelas mesmas sessões também passou a deputada Bete Mendes, que, em agosto do ano passado, teve um amargo reencontro com seu ex-torturador quando fazia parte da comitiva de Sarney por ocasião da visita do presidente ao Uruguai. Ela revelou publicamente que Ustra e Tibiriça eram a mesma pessoa. O currículo do coronel registra também sua participação numa frustrada tentativa de golpe contra o governo do general Ernesto Geisel, em 12 de outubro de 1977, quando o presidente demitiu o ministro do Exército, general Sylvio Frota." 64

"No encontro Nacional das Entidades de Anistia foram citados 252 torturadores, almirantes, generais, brigadeiros ou meros alcagüetes – uma lista já publicada pela Tribuna da Imprensa. Os maiores centros de torturas foram no Rio, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Ceará, Pará e Goiás." 66

"A anistia a pessoas envolvidas na violação dos direitos humanos é uma medida condenável, pois cria uma impressão de impunidade e de falta de padrões de conduta claros. Na prática, isso acaba resultando num estímulo à tortura e outros abusos contra os direitos humanos. Assim se resume a posição da Anistia Internacional sobre o assunto, de acordo com o biólogo australiano James Welsh, 40, coordenador dos grupos médicos do Secretariado Internacional, em Londres, sede mundial da organização. (...)

Embora considere um progresso inquestionável o processo de democratização em vários países da América Latina, Welsh ressalva que nem sempre isso significou o fim da tortura e das violações aos direitos humanos. O caso brasileiro apresenta perspectivas de mudança, com a nova Constituição. Além disso, o governo do presidente José Sarney, embora tenha assinado, em setembro de 1985, a Convenção da ONU contra a tortura, não a submeteu ao Congresso para ratificação, condição para que a adesão se concretize. Em maio de 1986, o secretário-geral da Anistia Internacional, em visita ao Brasil, constatou, em conversa com o Ministro da Justiça Paulo Brossard, que o processo estava perdido em algum ponto dos trâmites burocráticos. (...)

Os programas médicos da Anistia Internacional surgiram após a reunião de 1973 em Paris quando, diante de várias denúncias de cumplicidade de profissionais de saúde com a violação de direitos humanos pelos governos de diversos países a organização decidiu lançar sua primeira campanha específica contra a tortura. O primeiro grupo médico surgiu em Copenhague, capital da Dinamarca, com o objetivo de ajudar ex-presos a superar o trauma físico e psicológico da tortura e dos maus tratos na prisão. Desse primeiro núcleo, com nove membros, os grupos médicos foram se expandindo e contam hoje com cerca de 8 mil profissionais de saúde – entre médicos, psicólogos, enfermeiros – em trinta países." 68

"O sargento Roberto Fábio, acusado por Dickson Grael de ser o autor da morte de Alexandre Baumgartem, é do Corpo de Pára-quedistas do Exército, e excelente militar, segundo informaram, ontem, companheiros de tropa. (...)

Roberto Fábio foi auxiliar direto do general Hugo Abreu, ex-chefe da Casa Militar no Governo Geisel, quando comandava a Brigada de Pára-quedistas. Destacou-se por atos de bravura quando da guerrilha do Araguaia e Xambioá, indo parar no Conselho de Segurança Nacional do Governo Geisel. Quando da exoneração de Hugo Abreu, ficou lotado no SNI, graças às suas qualidades – é excelente atleta, possui todos os cursos de pára-quedismo, atirador de elite e um dos instrutores do Comando de Sobrevivência na Selva.

No final do Governo Figueiredo, pediu transferência para a reserva, como subtenente." 76

"Está na hora de acabar com o mistério que ainda envolve a guerrilha do Araguaia – e o presidente eleito, Fernando Collor de Melo, pode ter uma contribuição definitiva nesse sentido. É essa a opinião do tenente-coronel da reserva do Exército Sebastião Curió Rodrigues de Moura, 55 anos, mais conhecido como major Curió – o adversário mais ostensivo da guerrilha organizada pelo Partido Comunista do Brasil no sul do Pará, entre 1972 e 1974. Eu considero que este é o momento oportuno para relatarmos à nação o que de fato se passou em Xambioá. Se convocado pelo presidente Collor de Mello eu vou contar tudo o que sei (...)

Os livros que estão publicados, por má-fé ou falta de conhecimento, apresentam uma visão distorcida dos fatos, denegrindo a imagem dos órgãos de segurança e das Forças Armadas e até a imagem do próprio PC do B, diz o major. (...) Houve uma ordem para que todos os documentos fossem incinerados – mas alguma coisa foi salva, coisas importantes, diz. Entre elas, diários de alguns guerrilheiros, cartas de outros e, sempre segundo o major, os planos estratégicos do PC do B. Eu guardei porque já naquela época prejulgava que um dia isso seria importante.

O major, é claro, continua o mesmo ferrenho anticomunista que sempre foi – desde 1961, como tenente, quando foi preso por posicionar-se contra a posse de João Goulart na Presidência da República, até o ativo conspirador que foi em 1964 e à condição de quadro do Centro de Informações do Exército (CIEx) que passou a ostentar desde 1971. Foi nessa condição que ele atuou no Araguaia – como homem da área de informações embora admita ter participado de diversos combates com guerrilheiros.

- O Sr. matou alguém, major? Matar eu não sei se matei, responde Curió. Eu combati, troquei tiros na selva, fui atingido por dois tiros. A guerra é violenta porque você não sabe quem é o inimigo, onde ele está, de onde vem o tiro e a que horas ele vai ser disparado. A guerrilha é uma guerra de cão. - desabafa o major, sem esconder o orgulho por ter sido um dos poucos militares que combateram depois da Segunda Guerra Mundial. (...) ... revelando que, à época, durante uma cerimônia militar reservada, o general Orlando Geisel, então ministro do Exército, concedeu-lhe a mais alta honraria das Forças Armadas Brasileiras – a Medalha do Pacificador, com palmas. Sem palmas, muita gente tem. Mas com palmas, são poucas, orgulha-se. (...)

Eu não os considero como bandidos ou terroristas. Muitos deles eram rapazes imbuídos de propósitos patrióticos – embora equivocados. Eu respeito grande parte deles, mas acho que alguns não merecem respeito, declara Curió, que no livro anunciado vai traçar o seu perfil de alguns guerrilheiros, como Dina e Osvaldão, dois dos mais conhecidos. O major nega peremptoriamente que os militantes do PC do B mortos no Araguaia tenham tido suas cabeças cortadas – como dirigentes do partido já chegaram a denunciar. Isso é mentira. (...)

Houve mortes dos dois lados, diz. Não compete a mim clarear esses fatos – e sim à Justiça – mas, como brasileiro eu julgo importante que os mesmos sejam esclarecidos. (...) Eu acho justo que a Nação tenha conhecimento de um fato importante ocorrido em território pátrio." 79

"Até hoje, o Exército não informou as baixas que sofreu nem quantos guerrilheiros morreram em combate e quantos foram capturados. O segredo alimenta a suspeita de que na lista de 59 desaparecidos haja prisioneiros executados na zona de combate ou levados do Araguaia e mortos em prisões militares. (...)

Em 1986, Dower retornou ao Araguaia para obter mais informações sobre os desaparecidos. Em contatos com antigos colaboradores da guerrilha, soube que o Exército sepultava os guerrilheiros em três cemitérios. Dois cemitérios ficavam nos acampamentos militares de Bacaba e Metade. Nesses cemitérios, de acordo com testemunhos que, segundo Dower tiveram confirmação do general Antônio Bandeira, foram enterrados Bergson Gurjão Farias e João Haas Sobrinho, na mesma cova Vicente Lopes e Aurelisa Valadão. Habitantes da região disseram que os despojos foram levados depois em sacos plásticos por helicópteros.

O terceiro cemitério localizava-se na floresta da margem esquerda do Rio Araguaia, na confluência com o Igarapé Xambioazinho. Dower diz que foi usado na fase de intensificação dos conflitos, quando os corpos dos guerrilheiros eram decapitados e deixados na floresta. As cabeças eram levadas para identificação em São Geraldo, base das tropas, e depois enterradas. Barqueiros disseram ter visto militares enterrando cabeças em covas cilíndricas abertas sob troncos de palmeiras babaçu.

Dower esteve no Igarapé Xambioazinho, mas não conseguiu localizar as covas onde teriam sido enterradas as cabeças dos guerrilheiros." 80

"As pastas relativas ao movimento guerrilheiro no Araguaia (sul do Pará), entre 1972 e 1975, desapareceram dos arquivos do DEOPS-SP assim como o material sobre o PC do B, patrocinador da guerrilha que deixou um saldo de 59 desaparecidos. Documentos da Marinha e Aeronáutica também não foram encontrados no acervo, apenas algumas informações do Exército.

A falta desse material faz a Comissão de Familiares supor que os arquivos do Deops não estão intactos como afirmou a Polícia Federal por ocasião da transferência do acervo para o estado. Alguns documentos exibidos ontem mostram que as fichas foram utilizadas até janeiro do ano passado. (...) Para organizar o acervo Adilson Alves não se mostrou muito animado, estimando que o trabalho levará ‘uns 20 anos’." 96

"As garantias dadas pelo Diretor Geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, de que os arquivos do extinto Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS) sobre os presos no período de 1912 a 1983, estariam intactos foram desmentidas pela comissão de familiares de mortos e desparecidos da ditadura militar, que provou que os documentos foram enriquecidos de informações datadas de até recentemente, além disso, constataram a ausência de pastas que estavam catalogadas numericamente e que o arquivo foi embaralhado propositalmente para dificultar as consultas dos familiares. Quando procurávamos o Romeu Tuma e o Marco Antônio Veronesi (superintendente da PF), as respostas que tínhamos era de que os documentos estavam intactos. É mentira. Estes documentos eram utilizados até há meses atrás, inclusive há informações anotadas por eles (PF) de 1990, denunciou Ivan Seixas, da comissão de familiares dos desaparecidos.(...)

Para muitos que não conhecem o que aconteceu nos porões da ditadura militar, estes documentos possuem informações estarrecedoras que vão chocar. É importante que estes documentos sejam divulgados para que esta história seja bem contada, e não mais se repita, completou.

Os documentos são papéis que revelam uma história, um idealismo de moços e velhos que procuraram instaurar a liberdade no país, continuou o secretário da Justiça. (...)

Segundo Ivan, a luta para a abertura dos arquivos do Deops é muito antiga. "Com o descobrimento da vala clandestina no cemitério de Perus, ficou mais clara a necessidade de vermos estes documentos. Começamos pelo arquivo do IML de São Paulo, arquivos da Prefeitura, enquanto isto alguns estados conseguiam abrir os arquivos do Deops de cada Estado. Só ficou faltando os arquivos de São Paulo e Rio de Janeiro".

De acordo com Ivan Seixas, os familiares começaram a pressionar o Governo Federal, e no ano passado, foi um grupo de pessoas até a Casa da Dinda. A Polícia Federal queria mandar os arquivos para o Rio, mas a comissão entrou em contato com o governador do Estado que interviu e os arquivos foram passados da responsabilidade da Polícia Federal para a Secretaria da Cultura. (...)

Conforme denunciou Ivan, há diversas pastas de documentos que não estão no acervo. Quando abrimos as gavetas do arquivo, vimos que existem diversas gavetas que foram esvaziadas". (...) Não há pastas relativas à Marinha e nem à Aeronáutica. Existem algumas apenas do Exército, garante Ivan.

Ainda hoje, segundo Criméia de Almeida, a guerrilha ocorrida no Araguaia não é reconhecida pelo Exército. Todos os que foram mortos neste conflito são considerados como desaparecidos, pois até hoje não se tem nenhum documento registrando nenhuma morte, afirma a esposa de André Grabois, ‘desaparecido’ no sul do Pará. Nas pesquisas que Criméia realizou, descobriu uma ficha no Deops com a foto de André, mas com o nome de José Vieira. Até hoje, seu destino ainda não foi esclarecido." 97

"A Comissão dos Desaparecidos sustenta que a pesquisa feita nos últimos meses mostra que sumiram milhares de fichas que tinham sido preparadas pelos órgãos de repressão da Marinha e da Aeronáutica. O diretor geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, e o superintendente regional, Marco Antônio Veronezzi, mentiram descaradamente ao dizerem que os arquivos nunca foram mexidos, acusa o jornalista Ivan Seixas, filho de um dos desaparecidos.

A suspeita é absurda, rebate Veronezzi. Do jeito que o arquivo foi recebido pela PF, foi restituído ao Estado, sem a supressão de qualquer documento." 98

"A Polícia Federal procurará cemitérios clandestinos nos quais o Exército teria enterrado 31 pessoas desaparecidas durante a guerrilha do Araguaia, no Sul do Pará. A medida foi anunciada ontem pelo ministro da Justiça, Maurício Corrêa. As buscas serão feitas na Fazenda Oito Barracas, no município de São Domingos do Araguaia. A decisão do ministro não agrada aos militares, como adianta um oficial ligado ao Alto Comando do Exército.

- Existe o risco de novas discussões sobre o passado suscitarem na juventude de hoje o desejo de participar de movimentos semelhantes. Será que o Estado terá que indenizar as famílias dessas pessoas? – pergunta, referindo-se à posição de Corrêa, favorável à indenização.

Durante o anúncio da operação, Corrêa fez questão de tranqüilizar os militares.

- A Polícia Federal vai simplesmente procurar e, se for o caso, desenterrar e identificar as ossadas, porque é um direito dos parentes das vítimas. Mas não se trata de nenhum inquérito para apurar responsabilidades. Não há mais crime, está tudo sepultado pela anistia – ressalvou." 123

"O superintendente da Polícia Federal no Pará, delegado Roberto Porto, apontado como torturador no período da ditadura, será o responsável pela tarefa de desenterrar as ossadas de prováveis desaparecidos na Guerrilha do Araguaia sepultados no cemitério de Oito Barracas, em São Domingos do Araguaia.

Por determinação do diretor-geral do DPF, os trabalhos para tentar encontrar os cadáveres de 69 desaparecidos no Araguaia foram delegados à Superintendência do DPF no Pará e à Secretaria de Segurança, que devem organizar expedição à região onde o deputado Haroldo Lima (PC do B/BA) e parentes de desaparecidos descobriram cemitério clandestino. Suspeita-se que o local foi usado pelas forças da repressão para sepultar os corpos de pelo menos três guerrilheiros do PC do B.

O nome do delegado Roberto Porto consta do livro Brasil: Nunca Mais, organizado pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, como torturador ... , à época em que atuava como agente na Superintendência do DPF no Ceará. É lamentável e muito triste, mas foi essa a solução do ministro Maurício Corrêa, disse Criméia de Almeida ."124

"... o ex-deputado Sebastião Moura, o major Curió, embrenhou-se no mato nas cercanias de Brasília e disparou contra dois adolescentes. Matou um e feriu outro. O ex-deputado suspeitava que os dois haviam roubado uma televisão e um radio-relógio de sua chácara e decidiu caçá-los. Conseguiu, e acrescentou um novo cadáver à sua biografia, que inclui a participação direta ou indireta em mais de 100 mortes. (...) Foi agente secreto do antigo SNI e combateu na guerrilha do Araguaia na década de 70. Como major, metido numa bonita bermuda, defendeu a invasão do Palácio do Planalto para derrubar o ex-presidente Ernesto Geisel. Tornou-se o rei do garimpo de ouro em Serra Pelada e se elegeu deputado. No ano passado, denunciou que o esquema Collor-PC lhe oferecera 120.000 dólares para sua campanha eleitoral. (...)

Sujeito normal, ele fez parte da primeira turma de agentes de espionagem do ex-SNI. Destacado para combater os guerrilheiros do PC do B no Araguaia, combateu com gosto. Por ordem do SNI, os militantes mortos eram enterrados, desenterrados e enterrados novamente num lugar conhecido apenas por Curió e três mateiros – nome dos nativos que trabalhavam como guias na selva. Mais tarde, Curió abriu três covas maiores, onde estariam no total sessenta ossadas. Para garantir que o lugar definitivo dos corpos nunca fosse revelado, Curió fez um pacto com os três auxiliares: quem revelasse o segredo seria morto pelos outros. Ele ainda se encontra com seus amigos do Araguaia uma vez por ano. (...)

No dia 12 de outubro de 1977, quando o general Sylvio Frota foi demitido do Ministério do Exército pelo presidente Geisel, Curió foi escalado por Frota para levar à força, a seu gabinete, os generais de quatro estrelas que desembarcassem em Brasília. Como era feriado, foi para o aeroporto de bermuda com quinze agentes armados e só não seqüestrou os generais porque recebeu uma contra-ordem à última hora. No final do dia, chegou a sugerir que Frota o autorizasse a invadir um batalhão de blindados para tomar o Palácio do Planalto. Até Frota achou a idéia radical. (...)" 125

"Quando matava apenas guerrilheiros do PC do B, a serviço do Exército, e cuidava dos garimpeiros de Serra Pelada, o coronel Sebastião Curió era mesmo um sujeito de prestígio. Tanto que virou nome de município – Curionópolis – no Sul do Pará.

Depois que atirou para matar num rapaz de 17 anos – supostamente um ladrão – em Brasília, a sorte do coronel Curió mudou. O novo prefeito de Curionópolis, João Chamon Neto, pediu ao TRE do Pará para realizar um plebiscito. Quer mudar o nome da cidade." {Não conseguiu}126

"O comandante militar do Norte, general-de-divisão Arnaldo Serafim, disse que o Poder Executivo não investigará a suposta existência de cemitérios clandestinos no Sul do Pará onde o Exército teria sepultado guerrilheiros.

A informação foi dada ontem à Folha pelo comandante da 23 ª Brigada de Infantaria da Selva, sediada em Marabá, general Guilherme Figueiredo, 55." 128

"O general Luciano Casales, comandante militar do Planalto, ameaçou ontem queimar os arquivos do antigo Dops de Goiás, que contêm informações sobre a guerrilha do Araguaia.". 157

"Já está sob a guarda do Governo de Goiás o arquivo histórico sobre a guerrilha do Araguaia. A documentação foi entregue ontem à tarde pela 3a Brigada de Infantaria Motorizada ao secretário de Segurança Pública do estado, Antônio Lorenzo Filho. O arquivo foi liberado um dia após determinação dada pelo ministro do Exército Zenildo Lucena, ao comandante militar Luciano Casales, que ameaçou incinerar o acervo. O governador Maguito Vilela demonstrou intenção de tornar pública a documentação. (...)

- Resta agora, ao governador de Goiás, ter a mesma sensibilidade do ministro do Exército e colocar as informações à disposição das famílias e dos historiadores – disse Miranda.

A polêmica em torno do arquivo surgiu depois que o grupo Tortura Nunca Mais manifestou interesse em consutá-lo. O general Casales reagiu à possibilidade, ressaltando que, para ele, entregar o material seria um crime militar. Valeu-se do regimento interno do Exército, que autoriza a destruição de documentação sem valor histórico com mais de cinco anos.

A ameaça de Casales mobilizou a comissão da Câmara e o Ministério Público, que protocolou ação na Justiça de Goiás para impedir a destruição do acervo. Evitando o prolongamento da polêmica, o ministro Zenildo Lucena reconheceu a importância histórica dos documentos e decidiu por sua imediata devolução ao governo de Goiás." 158

"João Figueiredo – chefe do SNI brasileiro de 1974 a 1978, participou ativamente da troca de informações entre orgãos repressores do Cone Sul. Presidente de 79 a 85." 257

"Ao aprofundar as investigações, no entanto, ele acabou descobrindo um universo mais amplo de atrocidades que, agora, poderá expandir o caso. Pois é provável que Garzón passe a enquadrar também alguns militares que naquele período lideraram a repressão política no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai e na Bolívia.

Garzón vem reunindo documentos que mostram que, a partir do golpe de Estado no Chile, os governos desses cinco países – todos sob ditadura militar – se uniram sob o comando da DINA, o serviço secreto chileno, numa espécie de ‘Mercosul do terror’. A parceria, formalizada em 1975, foi denominada Operação Condor, que passou a ser, nos últimos meses, o principal foco do processo espanhol contra Pinochet. (...)

A documentação que Garzón pretende obter deixa claro que Tio Sam sempre soube dessas manipulações, sendo conivente com elas em nome de seus próprios interesses. (...)

Martín Almada desconfia que a Operação Condor ainda não teve um fim. Documentos mais recentes corroborariam sua tese. Uma correspondência entre oficiais das Forças Armadas do Equador e do Paraguai, por exemplo, começava assim: Tenho a satisfação de dirigir-me a você com o objetivo de remeter a apreciação da situação subversiva do primeiro semestre de 1997.

Além disso, ‘a situação da subversão no Brasi’ foi tema, em 1987, já em plena democracia, da XVII Conferência dos Exércitos Americanos, realizada na Argentina." 257

"O Brasil teve um papel decisivo no sucesso da Operação Condor. Documentos confidenciais do Governo americano, já requisitados pelo juiz espanhol Baltasar Garzón, indicam que a ditadura militar brasileira era a principal aliada do regime do general Pinochet ‘em termos de inteligência’. (...)

O general João Baptista Figueiredo, ex-chefe do Serviço Nacional de Inteligência (SNI), e que posteriormente se tornaria presidente do Brasil, foi um dos elementos vitais à coordenação da caçada aos opositores no Cone Sul, segundo as provas que semanas atrás chegaram às mãos de Garzón, em Madri.

O plano proposto por você, para coordenar nossa ação contra certas autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos social-democratas e democrata-cristãos da América Latina e Europa, conta com o nosso decidido apoio, dizia um trecho de uma carta enviada em 28 de agosto de 1975 a Figueiredo pelo coronel Manuel Contreras, o chefe da DINA, serviço secreto chileno, o líder absoluto da Operação Condor.

A carta é um dos documentos que foram entregues a Garzón no início de dezembro pelo educador paraguaio Martín Almada, ex-preso político. Ele foi a Madri depor no processo contra Pinochet e solicitou a inclusão de Figueiredo nesse pacote, além dos generais Jorge Videla, Emílio Massera e Leopoldo Galtieri, da Argentina; Gregório Alvarez, do Uruguai; e Hugo Banzer, da Bolívia. (...)

Em meio aos papéis levados à Espanha há uma carta do coronel Contreras a Pinochet, seu superior imediato, com data de 16 de setembro de 1975. Nela há referências à cooperação brasileira. "Em atenção à Vossa Excelência, especifico as razões pelas quais considero indispensável solicitar uma remessa adicional de US$ 60 mil:

     

  1. aumentar o contingente da DINA no Brasil;

     

financiamento para os oficiais da DINA que fazem um curso de preparação anti-guerrilha no centro de treinamentos de Manaus, no Brasil." 257

 

História


A chegada dos primeiros agentes - o início da Guerrilha

Primeiras notícias sobre o início da Guerrilha

Segunda Campanha

Terceira campanha - a guerra suja

Versão oficial

Os guerrilheiros

Prisioneiros e mortos

Os militares e seus colaboradores - cachorros e pistoleiros

A repressão na região

O silêncio e a fala dos militares

A população

A guerrilha e os guerrilheiros

A ocultação dos mortos

Ações na justiça

A busca dos familiares

A busca dos familiares em outros locais

Medidas dos governos civis

Homenagens

O Partido Comunista do Brasil

Bibliografia

Saiba mais


A repercussão da Caravana ao Araguaia
julho/2001

O processo dos familiares contra a União na OEA

Os guerrilheiros

Os camponeses

Os militares

Os cemitérios clandestinos