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Como a Transbrasil aterrissou na maior crise dos seus 47 anos (E como
Cipriani decolou)
Inúmeros negócios mal-explicados e um casamento constam da trajetória
de Celso Cipriani, o principal homem na empresa nos últimos 22 anos
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Celso Cipriani: "Não tenho conta na Suíça e o
que estão fazendo é uma tremenda sacanagem em cima
de mim"
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LUIZ MAKLOUF CARVALHO
Especial para o Estado
Em 25 de agosto de 1994, o empresário e então presidente da
Transbrasil Airlines Inc., Antônio Celso Cipriani, acionista minoritário
da hoje quebrada Transbrasil S/A Linhas Aéreas, assinou uma requisição
interna que autorizava a transferência de US$ 430 mil dólares para uma
conta no Banque CBI-TDB - Union Bancaire Privée, em Genebra, Suíça.
No mesmo dia, o dinheiro caiu na conta 48276VR, da Brindol Trading.
Em 26 de maio de 95, o representante da Transbrasil em Milão,
Manlio Olivero, enviou um fax para a Transbrasil Inc., informando os
dados precisos de uma conta bancária: Banca Della Svizzera Italiana
- B.S.I. Lugano, conta Arcoiris, número 517720. Em 31 de maio de
95, cinco dias depois, a Transbrasil Inc., sob a presidência de
Celso Cipriani, depositou na conta Arcoiris/517720.
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Em 8 de fevereiro de 95, Celso Cipriani mandou transferir US$ 100
mil para a conta 722020 - BSI - Banca Della Svizzera Italiana,
Lugano, BSI Gerence International Bank (Corporation New York).
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Entre janeiro e julho de 1996, Antônio Celso Cipriani assinou
quatro faturas comerciais, de US$ 50 mil cada uma, emitidas pela
empresa Dynasolo Corporation, com endereço em Nova York, por
"estudos de controle de orçamento". Em 8 de dezembro de
1999, as quatro faturas foram anexadas a um processo trabalhista que
até agora tramita na 74.ª vara da Capital, com o juiz do Trabalho
Manoel Ariano. Trata-se de reclamação da ex-funcionária Marise
Edite Ferreira Barbosa, demitida sem a indenização que considera
devida, contra a Transbrasil S/A Linhas Aéreas.
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Marise trabalhou na empresa entre maio de 80 e janeiro de 1999.
Entre 90 e 99, ficou lotada na Transbrasil Inc., sob a direção de
Celso Cipriani. Foi gerente, superintendente geral e diretora de
Administração e Finanças nos Estados Unidos. Consta, do auto
trabalhista, a afirmação de que as faturas emitidas pela Dynasolo,
e aprovadas com a assinatura de Cipriani, são "frias".
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Marise também narrou, na inicial do processo, que a Transbrasil
S/A Linhas Aéreas "emitia, no Brasil, notas de compras de peças
destinadas a reparos e manutenção, que estavam sendo feitos nas
aeronaves localizadas no exterior, e remetia os valores para
pagamento através do Banco Central do Brasil, com total isenção
de impostos. Tais valores eram lançados como despesas operacionais,
reduzindo o lucro tributável da empresa. Na realidade, apenas uma
pequena parte dos valores remetidos eram destinados a tais
pagamentos - aproximadamente 20% do seu total, pois as notas de
compras eram emitidas com valor superior ao real".
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"Houve casos em que sequer havia o gasto efetivo, tratando-se
de mera documentação forjada apenas para embasar a remessa
financeira. Ressalte-se ainda que faturas 'frias' eram emitidas com
o mesmo fim, conforme demonstra a documentação em anexo", diz
ainda a reclamação trabalhista de Marise Barbosa.
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"Entre maio de 93 e agosto de 96, o Celso retirou da
Transbrasil, em espécie, US$ 1.699.521,78, para finalidade que
desconheço", diz Marise, sacando um papel assinado por Antônio
Glustak, de 9 de setembro de 96.
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Glustack era, então, gerente financeiro da Transbrasil Inc. O
papel, não oficial, registra dezoito retiradas supostamente feitas
por Cipriani. A menor é de US$ 15 mil; a maior, de US$ 250 mil.
"Resolvemos registrar, com os respectivos números dos cheques,
porque as retiradas, sem explicação plausível, se tornaram
constantes", diz Marise.
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"Eu não tenho conta nenhuma na Suíça e o que estão
fazendo é uma tremenda sacanagem em cima de mim", disse Celso
Cipriani na quinta-feira, 28 de fevereiro, por telefone celular. Ele
não quis dar entrevista. Seu advogado, Roberto Teixeira, também
recusou-se a falar.
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Cipriani vai bem, obrigado, no que diz respeito à saúde
financeira. A Transbrasil vai mal, como se sabe, e enfrenta a maior
crise dos 47 anos de existência: deve R$ 1 bilhão na praça, não
paga os 1.200 funcionários desde outubro, não voa desde o último
3 de dezembro. Antes de entrar na Transbrasil, e casar-se com a
filha do dono, Omar Fontana, Cipriani era investigador da Polícia
Civil. Hoje, é dono do Grupo Cipriani, conglomerado ascendente que
reúne empresas no Brasil e nos Estados Unidos.
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São elas:
Solvista Golf and Ski Ranch (cinco mil acres nas
Montanhas Rochosas, Colorado, com 33 pistas de esqui), Target (aviação
executiva e táxi aéreo, em São Paulo), Waytec (fábrica de
monitores com tela de cristal líquido, em Ilhéus, BA), Acec
Empreendimentos (construção civil, em São Paulo) e Alexandrita
Mineração (lavra de pedra preciosa, em Antônio Dias, MG). Ele
também tem avião (um Learjet executivo de US$ 14 milhões), além
de casas em Miami e Colorado (EUA) e Florença, Itália.
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A Target funciona em área cedida pela Transbrasil, na rua General
Pantaleão Teles, 40, Congonhas, ao que consta pagando aluguel. É
representante exclusiva no Brasil da Bombardier Aerospace, líder
mundial na fabricação de jatos executivos, da MD Helicopters e da
Pilatus Aircraft. A Acec prosperou depois de construir o prédio
administrativo da Transbrasil, no mesmo endereço. A Target, a
Waytec e a Acec são dirigidas, no dia a dia, por Emídio Cipriani,
irmão e sócio de Celso, que não quis dar entrevista.
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Celso e a Transbrasil estão com os bens indisponíveis por decisão
do juiz Ricardo Gonçalves, da 19.ª Vara Federal de Brasília, do
último dia 26, para o pagamento de dívidas de R$ 65,9 milhões com
a União. O empresário está na mira da Receita Federal e do
Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão do
Ministério da Fazenda que investiga lavagem de dinheiro.
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"Recebemos denúncias contra ele", disse Adrienne Senna,
a presidente do Coaf, recusando-se a dar mais detalhes.
"Estamos em observação ostensiva", disse Delmar
Vasconcellos de Moraes, diretor-geral da Coordenação de Pesquisa e
Investigação (Copei), área de inteligência da Receita Federal.
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O Ministério Público do Trabalho também está de olho em Celso
e na Transbrasil. Conseguiu, no caso da companhia, que a Justiça
arrestasse três aeronaves como garantia do débito trabalhista, em
torno de R$ 40 milhões. E estuda um pedido para o bloqueio dos bens
de Celso e da família do fundador Omar Fontana, acionista majoritária.
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A suspeita de que Cipriani tenha usado o dinheiro da Transbrasil
para alavancar o próprio patrimônio foi verbalizada dentro da
companhia, para o advogado Roberto Teixeira e quem mais quisesse
ouvir, em reunião ocorrida em 31 de janeiro, em Brasília, onde
fica a matriz. "Minhas ações valiam US$ 3 milhões e agora não
valem mais nada. O Celso é ladrão", bradou, indignado, o
acionista minoritário Helcias Anchieta, consultor e conhecido
lobista na Capital Federal. Na momento em que interveio, para
retirar Anchieta da reunião e fazê-lo calar-se, Teixeira ainda
ouviu: "E o senhor está a serviço de uma quadrilha."
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A reunião de 31 de janeiro serviria, em tese, para oficializar a
posse do empresário Dilson Prado da Fonseca na presidência da
Transbrasil. Foi Teixeira quem apresentou Celso a Fonseca, em 17 de
janeiro, na sala da presidência da empresa, na rua general Pantaleão
Teles, 40, onde fica o hangar da companhia, em Congonhas. Para a
cerimônia de compra propriamente dita, em 21 de janeiro, Teixeira
reservou uma sala no mesmo edifício em que fica o escritório dele,
na esquina da Alameda Lorena com a Avenida 9 de Julho. Estavam lá:
Celso e a esposa, Marise Pereira Fontana Cipriani; a viúva Denilda
Fontana e as outras filhas, Valéria e Maria Eugênia; Teixeira com
a esposa e a filha, a advogada Maria de Lourdes, da Transbrasil, além,
é claro, do comprador Dilson Fonseca, acompanhado do filho, Bruno.
Uma festinha, enfim, com quitutes e jarras de suco e até direito a
fotógrafo contratado - e ainda não pago -, o americano neozelândes
Sacha Quadrelli.
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Dilson conta, sem detalhes, que foi à luta, nos Estados Unidos,
atrás dos US$ 25 milhões que prometera levantar para a primeira
injeção de recursos.
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Voltou "com boas novas", que também não revela, e
ligou, em 28 de janeiro, para Roberto Teixeira. "Dr. Roberto, o
aporte só sai se for feita uma auditoria na empresa e se o senhor
deixar de ser o advogado", é o que ele diz que disse.
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"Foi só eu falar essa palavrinha - auditoria - que ele
desabou", conta. No final da história, já conhecido, Fonseca
foi impedido de tomar posse na reunião do dia 31. A Transbrasil
alegou, oficialmente, que o Departamento de Aviação Civil não
aprovou o negócio, que Fonseca era inadimplente por não ter feito
o aporte no prazo estipulado e que não houve alvará judicial do
espólio do fundador Omar Fontana, autorizando a transferência.
Fonseca entrou na Justiça para ser "reintegrado na posse"
da presidência. "A Transbrasil é minha", continua a
dizer até hoje, aparentemente indignado por ter sido chamado de
"laranja" de Celso Cipriani. "Nunca fui manipulado
por ninguém e muito menos seria por um vagabundo como esse
Cipriani", diz. "Pedi a auditoria porque existem muitas
contas infladas e maquiadas do Celso - e vou fazê-la quando
assumir."
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Milhares de aviões ainda vão decolar até que se entenda o
motivo do, digamos, experimentado Roberto Teixeira ter avalizado
Fonseca e até preparado uma cerimônia para selar o negócio.
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Dilson é um brasiliense de 36 anos.
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"O que você acha que o credenciou a comprar a Transbrasil e
que cacife você tinha/tem para levantar o capital suficiente para
soerguer a companhia?"
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"A história que eu tenho na aviação e a experiência de
ter a vida inteira administrado falta de dinheiro", responde
Dilson.
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A história de Dilson na aviação, segundo ele próprio, começa
aos 14 anos, "como coordenador de vôo e lavador de avião".
Segue com um "lava-jato de aeronaves em Itaituba (PA)",
"uma oficina de manutenção aérea", a compra de um avião
monomotor e, nos garimpos de Roraima, "a primeira operação
com um turbo-hélice".
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"Foi um período onde nós ganhamos muito dinheiro, até a
vinda da era Collor, que fechou os garimpos, nos obrigando a levar
nossa operação de transporte de carga para Belém", conta. Em
Belém (PA), explorou "transporte de cargas e
passageiros". Em 95, foi para o Piauí e operou "na
distribuição de medicamentos, para todo o Norte e Nordeste do País".
Comprou, na ocasião, um avião Brasília, da Embraer, mais tarde
devolvido, por ordem judicial, por inadimplência. Dilson ainda
tentou, em Campinas, "operar um contrato de malotes para a
Argentina". Também não deu certo, "porque houve muito
atraso nos recebimentos". Passou os últimos dois anos
atormentado com problemas de saúde na família. Em 11 de dezembro
passado, ligou para a Target, empresa de Cipriani, para
"permutar um avião". Um executivo lhe disse que a
Transbrasil estava à venda - e Roberto Teixeira cuidou do resto e
do fiasco que veio no dia 31.
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O advogado e Antônio Celso Cipriani já tinham passado por uma
saia justa, no dia 4 de dezembro, em reunião noturna na residência
da viúva, Denilda Fontana. Inadimplente contumaz, a Transbrasil
parara de voar no dia anterior, sem dinheiro vivo nem para o combustível
dos aviões. Teixeira e Cipriani receberam, em 3 de dezembro, no
escritório do advogado, uma proposta do consultor César Palmeira,
da Palmeira & Consultores Independentes. Com o aval informal da
General Electric Corporation - uma das maiores credoras da
Transbrasil - Palmeira propunha a reoperacionalização da
companhia. A conversa prosperou. Continuou, no dia seguinte, na casa
da viúva de Omar Fontana, a maior acionista. Estavam lá, às 19
horas: Cipriani, Teixeira, dona Denilda Fontana e César Palmeira. A
tantas, Palmeira disse, por conta própria, que a condição
preliminar da GE era o afastamento de Cipriani e Teixeira,
"para higienizar", segundo conta o próprio Palmeira. O
empresário e o advogado se abespinharam. Dona Denilda, chocada,
perguntou para o genro: "Mas por que isso, Celsinho?"
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Como a proposta fosse interessante, a conversa prosseguiu, até
uma da madrugada. Acabou positivamente e com as arestas aparadas.
Houve nova reunião no dia 5, entre Palmeira, Celso e Teixeira, no
escritório deste, entrando em cena, desde então, o escritório
Manhães Moreira Advogados Associados, patrono da General Electric.
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Manhães preparou, com data de 5 de dezembro, como "minuta
preliminar para discussão", um "Protocolo da Intenções",
com vinte cláusulas, entre a Grupo GE (GE Corporation, GE Engines e
GE CApital) - as empresas credoras - e o Grupo Transbrasil
(Transbrasil S/A, Interbrasil Star e Aerobrasil). Pelos termos do
protocolo, o Grupo GE se comprometia a retirar as ações judiciais
contra a Transbrasil - recebendo, em contrapartida, os créditos de
ICMS que a Transbrasil ganhou parcialmente na Justiça, coisa de R$
350 milhões, ainda pendentes de decisão final. Os valores que
excedessem a dívida, estimados em US$ 10 milhões, seriam
creditados, dez dias depois da assinatura do contrato, na conta do
Grupo Transbrasil - que se comprometeria, pela cláusula terceira do
protocolo, "a utilizar esses recursos exclusivamente para
pagamento de salários, combustíveis e outras emergências". A
GE prometia, visando a retomada das operações, em curto prazo,
devolver em 30 dias todas as turbinas judicialmente apreendidas,
"devidamente revisadas e em estado de conservação, visando
exclusivamente a remotorização das três aeronaves B-767-200 ,
colocando as mesmas nos perfeitos critérios legais de seu atestado
de navegabilidade". Chegou-se até a preparar, também como
"minuta preliminar para discussão", um comunicado de Fato
Relevante:
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"O grupo General Electric Corporation e a Transbrasil S/A
Linhas Aéreas informam ao público em geral e interessados que
nesta data estabeleceram um 'Protocolo da Intenções' que objetiva
a normalização de suas relações comerciais, visando um projeto
que contempla a recuperação da Transbrasil S/A junto ao mercado,
funcionários, fornecedores e à nação brasileira dada a sua
importante posição no composto de aviação comercial brasileira,
vital aos pressupostos da integração e soberania nacional."
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O otimismo era tanto que o escritório Manhães Moreira chegou a
formalizar, com data de 17 de dezembro, um "Instrumento
particular de confissão de dívida", com sete cláusulas, no
qual a Transbrasil responderia pelos honorários advocatícios,
exatos R$ 2.508.971,53, equivalentes a 10%, mais mora de 0,5% ao mês,
sobre o valor das sete causas judiciais movidas pela GE e em mãos
do escritório Manhães.
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Ia tudo muito bem, tudo muito bom - em tese, a Transbrasil já
poderia até estar voando, e com os salários em dia -, mas Roberto
Teixeira vetou a negociação. Em e-mail enviado às 9h31 de 21 de
dezembro, ele informava, a César Palmeira, com cópia ao advogado
Solano Camargo, da Manhães Moreira, "que tais propostas FORAM
REJEITADAS por nossa empresa, ficando assim reafirmado que V.S. fica
desautorizado a promover quaisquer gestões empresariais que
envolvam o grupo TRANSBRASIL. Limitado ao essencial exposto,
TRANSBRASIL S/A".
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Cipriani já teve um caso particular, com a GE: em outubro de
1998, enviou uma carta pessoal para o presidente internacional do
grupo, Jack Welch, reclamando da pressão para a cobrança das dívidas.
Welch anotou, de próprio punho, na carta, "We do have to make
this customer love us" ("Precisamos fazer esse cliente
voltar a nos amar"). Até hoje ela circula na mão de diretores
da GE - e é sempre mostrada nas rodadas de negociação da dívida,
que ainda são feitas.
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Paulista de Promissão, nascido em outubro de 46, Antônio Celso
Cipriani entrou para a Polícia Civil de São Paulo, como
investigador do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em
10 de outubro de 69. Serviu na repressão política sob as ordens
dos delegados Romeu Tuma, então chefe do serviço secreto do Dops e
hoje senador pelo PFL, e Sérgio Paranhos Fleury, notório
torturador.
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Celso e o também investigador José Roberto Arruda, hoje
delegado, eram do terceiro escalão operacional. Infiltravam-se, por
exemplo, nas entidades que lutavam contra a ditadura militar,
levantando informações que levavam a prisões e, em muitos casos,
a torturas e mortes. Foi o caso, por exemplo, da infiltração que
levou aos assassinatos de Carlos Marighela e Joaquim Câmara
Ferreira, o Toledo, dirigentes da Ação Libertadora Nacional, ALN.
"Era uma guerra e fizemos a nossa parte", diz Arruda,
negando que ele e o colega tenham participado de sessões de tortura
ou operações com mortes.
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Tuma conhecia Omar Fontana, o fundador da Transbrasil, através do
coronel Luiz Maciel Junior, ex-integrante do serviço de informações
da Aeronáutica, e então diretor de manutenção da Transbrasil. Em
1978, Tuma indicou Cipriani e Arruda para o rastreamento de suposto
tráfico de drogas nos vôos da companhia. "Não deu em nada,
mas ficamos amigos do Omar", diz Arruda.
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Passaram a trabalhar para a Transbrasil, no chamado Corpo
Permanente de Fiscalização (CPF), uma espécie de polícia interna
comandada pelo coronel Evaldo Hardman. O senador Romeu Tuma, amicíssimo
de Cipriani até hoje, não quis dar entrevista.
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Celso era casado com Glória, filha de um operador de telecomunicações
da Polícia Civil. Começou a namorar com Marise, uma das quatro
filhas de Omar, que rompera o noivado com um bom partido. "Nós
vamos perder o emprego", brincava Arruda. Celso venceu a resistência
inicial da família Fontana e casou com Marise, primeiro
informalmente, em cerimônia íntima na casa de Omar, e, depois do
divórcio, já tendo nascido a primeira filha do casal, no civil,
com comunhão parcial de bens e festa no Clube Paulistano.
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O primeiro milhão de Celso veio com a empresa CCM - dele, do
dentista Humberto Cerruti Filho e de Marise. A CCM montava
computadores com os componentes que vinham do exterior, não se sabe
se legalmente, nos aviões de Transbrasil - e vendia para a própria
Transbrasil. Cerruti, dentista famoso e amicíssimo de Omar - que o
chamava de "flying dentist", dentista-voador - participava
das negociações para a compra dos aviões. Procurado, não quis
dar entrevista sobre o período da CCM.
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Celso cresceu sobremaneira quando assumiu a área de compras da
Transbrasil, primeiro no Brasil e, a partir de 1982, em Miami, na
direção da Transbrasil Airlines Inc., criada naquele ano com o
objetivo de comprar e exportar para o Brasil as peças necessárias
à manutenção das aeronaves da empres. Entre compras de peças e
contratos de recuperação, a Transbrasil Airlines gastava US$ 50
milhões anuais.
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Celso consolidou a confiança de Omar e de dona Denilda, a quem
chama de Mamy, entre outras coisas pela solidariedade prestada nos
dois maiores dramas na vida do empresário: a morte do neto
Omarzinho, nos Estados Unidos, onde estudava, e, depois, a morte da
filha Danusa, mãe de Omarzinho.
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Em setembro de 87, com a Transbrasil em dificuldades, Omar
negociou a intervenção federal na empresa, passando-a ao comando
do brigadeiro Josué Rubens Milhomens Costa e a equipe de coronéis,
entre eles Breno Cunha.
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Reinou a paz, no começo. Com o tempo, achando que os
interventores estavam abusando, Omar mudou de posição. Bateu de
frente com Breno Cunha, o negociador das dívidas da Transbrasil,
achando que eram absurdos os 3% de comissão pela diferença
negociada. Foi até proibido de entrar na companhia, então
dividida, internamente, entre os grupos POF (Pró Omar Fontana) e
PIF (Pró Intervenção Federal), em renhida luta interna.
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Os interventores demitiram Celso e Marise da área de compras em
Miami - assumida pelo coronel Gilberto Pacheco, interlocutor direto
do então ministro da Aeronáutica, brigadeiro Moreira Lima. Chocado
com os desacertos da Transbrasil Inc., Pacheco referia-se a Celso
como "bucaneiro".
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A intervenção foi suspensa em dezembro de 1989. Omar retomou a
Transbrasil, relativamente saneada, e Celso voltou à presidência
da Transbrasil Inc., onde ficou até o começo de 1998, quando
assumiu a presidência da Transbrasil Linhas Aéreas, no lugar de
Omar, já então com o câncer que iria matá-lo em 8 de dezembro de
2000. Descontados os dois anos e três meses em que foi afastado,
Celso reinou 22 anos na Transbrasil, os últimos dez com a colaboração
do amigo pessoal Roberto Teixeira, por ele apresentado a Omar e à
família Fontana no final dos anos 80.
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Documentos mostram momentos da Transbrasil Airlines Inc. nos
tempos em que Cipriani a comandou. Um deles, de agosto de 97,
refere-se à conta Intercompany - que envolvia as operações entre
a Transbrasil Linhas Aéreas e Transbrasil Inc - com "saldos
sem reconciliação" de US$ 6 milhões, em 96, e de US$ 11 milhões,
em 97. Em outro documento, de 14 de novembro de 97, o funcionário
Carlos Alberto Bispo, um dos fidelíssimos comandados de Celso,
apontava, em correspondência para Miami, que não havia faturas
para a cobertura de US$ 1.080.000,00.
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Em um relatório interno das reuniões efetuadas em Miami entre 14
e 16 de fevereiro de 1996 - assinado por Norival de Barros, então
diretor-financeiro da Transbrasil S/A - , pode-se ler que foram
discutidos, entre Celso Cipriani e Flávio de Carvalho, também então
diretor de Transbrasil Inc., "os problemas surgidos com os
descontos comerciais ocorridos no exercício de 1993 de US$ 8 milhões,
os quais não encontravam-se reconhecidos em nossa contabilidade por
falta das respectivas documentações".
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O relatório informa que na manhã dos dias 15 e 16, Celso
reuniu-se com a empresa que auditava a Transbrasil Inc., a companhia
americana Mckean Paul, Chrycy, Fletcher & Co. Larry Fletcher
representava a firma - que recentemente fizera ressalvas ao balanço
da Transbrasil Inc., "com respeito às diferenças existentes
nos saldos das contas que envolvem operações entre as duas
empresas" (a conta Intercompany). "Para tanto ficou
acordado que a Transbrasil no Brasil efetuaria um lançamento de
provisão de despesas no montante suficiente para cobrir tal diferença".
O relatório também discutiu os "adiantamentos concedidos a
MIACC" - o nome interno de Celso no jargão da companhia.
"Ficou acordado que a contabilidade da Transbrasil deverá
estudar uma forma de lançar em despesas (US$ 995 mil)".
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