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Polícia
de Verdade

É preciso muito peito para fazer tudo o que este homem, um
funcionário público, fez. Ele é polícia federal, liderança,
presidente da Associação Brasileira dos Agentes da Polícia
Federal e conselheiro da federação deles. Teve muito peito
para dar esta entrevista também. Possui uma noção de
cidadania rara de encontrar até em chefes de Estado. Que, aliás,
considera funcionários públicos como ele. Daí o poder
irresistível de falar tudo o que pensa, e parte de tudo o que
sabe sobre todos os escalões da República. Sem medo de ser
honesto, faz revelações que tornam esta entrevista, mais que
explosiva, histórica.
Sérgio de Souza - Você podia contar como chegou na Polícia
Federal?
Francisco Carlos Garisto - Se eu não
fosse polícia, seria polícia mesmo. Coisa de aptidão. Desde
menino queria ser polícia. E na repressão ao entorpecente.
Porque fui criado em um bairro aqui em São Paulo, o Tucuruvi,
onde, por causa da droga, o esquadrão da morte da época
matou 90 por cento dos meus companheiros de rua, eram uma
bandidagem danada. Tive que trabalhar desde cedo, porque era
pobre e tinha que ajudar a família, e me sentia muito mais do
lado da polícia, achando que os meus companheiros de rua
estavam todos errados. Daí fui fazer o Exército e na época
havia uma repressão política desgraçada, foi em 1971.
Mortes, desaparecimento de pessoas, aí me convidaram para
trabalhar na Oban, Operação Bandeirante, que era no
DOI-Codi. Não sei por que cargas-d’água, falei: "Não
vou mexer com esse negócio, não".
Marina Amaral - Quem ia para a Operação
Bandeirante tinha algum privilégio?
Garisto - Tinha. Primeiro, que você
deixava a farda, e deixava de ser raso. Depois, que, você
falando para um garoto de dezoito anos que ele é o James Bond,
fica uma coisa muito interessante. Que não vai mais usar
farda, vai usar uma 45 na cinta e vai ser agente infiltrado,
muitos desses meninos foram usados para praticar um monte de
imbecilidades. Existiam os repressores profissionais, que
faziam escola no Panamá, nos Estados Unidos, mas tinha os
meninos do Exército, da PM, que eles pegavam na formação de
oficiais, dezenove anos, vinte anos, e jogavam lá. E a
esquerda, para eles, eram assaltantes de banco, criminosos que
estavam ameaçando o país, queriam implantar o comunismo. Eu
não quis ir, queria sair do Exército, entrar na Polícia
Federal.
Marina Amaral - Por que a Polícia
Federal?
Garisto - Porque eu achava que ela
tinha uma estrutura constitucional melhor, de investigação,
que você poderia se desenvolver mais. Então deixei o Exército
e fui prestar concurso para a Polícia Federal. Eram mais de
quatrocentos disputando, fiquei em primeiro lugar e só o
primeiro lugar conseguia vaga em São Paulo, o resto ia para
as fronteiras. Entrei em 1977. Com cinco dias de polícia, fui
repreendido, um tipo de punição porque não quis ir nas
bancas de jornal apreender A Hora do Povo (jornal do
MR-8, uma facção de esquerda). Vinham ordens do Armando
Falcão (ministro da Justiça) para apreender o
jornal porque tinha falado mal do presidente, do dinheiro do
FMI, essas coisas. É que havia censura oficial. Os censores
ficavam aqui na sua redação: "Isto pode, isto não
pode". O Estadão metia receita de bolo, aquelas
coisas. Fui punido mas logo depois consegui ir trabalhar no
entorpecentes. Quando fiz um ano de polícia, me convidaram
para fazer uma infiltração em Cuiabá, me passar por
vendedor de éter e acetona para os traficantes — para fazer
a cocaína, eles precisam de éter e acetona. E, vendendo os
dois produtos, eu ia acabar descobrindo o laboratório. Lá
fui eu pra Cuiabá, sem estrutura nenhuma, a Polícia Federal
não tinha verbas etc. Mas troquei de identidade e tudo.
Mylton Severiano - Foi sozinho?
Garisto - Você não pode ir
acompanhado. Fui com um informante, que levei só para ele me
apresentar o contato lá. Aí montei uma empresa em São Paulo
para comprar éter e acetona da Rhodia e levava para Cuiabá.
Com isso, acabei chegando até a direção do Cartel de Medellín.
Fiz carreira. (risos) Aliás, é muito mais fácil
fazer carreira lá, porque existe uma ética, existe compreensão,
eles valorizam quem trabalha, o puxa-saco não tem vez.
Costumo falar que, se a polícia tivesse a estrutura do Cartel
de Medellín, o Cartel de Medellín não existiria. Lá, se
você dá lucro em uma operação, fica bem-visto; aqui, os
colegas já querem te derrubar porque você vai chegar a chefe
primeiro que eles.
Marina Amaral - A polícia tem mesmo
interesse em chegar nos cabeças do tráfico?
Garisto - Tem, mas é difícil
chegar. Ninguém quer falar isso, mas a diferença do Brasil
para a Colômbia hoje é só a violência entre traficantes.
Porque, de comando e controle do narcotráfico, é a mesma
coisa. Taí a CPI provando o que estou falando, existe um
crime organizado, um narcotráfico estruturado, que envolve
deputados, senadores e outras coisas, só que não se pode
falar sobre isso, a Polícia Federal é proibida de dar
entrevista. Tenho facilidade porque estou na Federação
Nacional dos Policiais Federais licenciado até 2002. Depois
de 2002, se voltar para a ativa da polícia estou ferrado,
porque eles não querem que fale isso, comparar o Brasil com a
Colômbia "é antidemocrático". Mas, se você não
falar, não se encara o problema. Você ouve meu pai:
"Puxa, mas deputado envolvido?" Tem um monte, o
Jabes Rabello, de Rondônia, aquele que foi cassado, por
exemplo, era só uma ponta; o senador Hernandes Amorim foi
suspeito de envolvimento, aí fica na suspeita, mas continua
senador. Essas investigações da CPI em Campinas, Piauí,
Maranhão, se fizer um levantamento, em qualquer Estado dá
igual.
Wagner Nabuco - Quantos homens tem hoje
a Polícia Federal?
Garisto - Temos 7.000 homens.
Desses, 3.000 são operacionais. Quatro mil estão na
burocracia. Às vezes, burocracias necessárias, como o Serviço
de Inteligência, que alimenta a operação. Temos região de
fronteira com dois agentes, os traficantes passam de AR-15
dando risada e dando tchau. Verdade. Quem já esteve lá sabe
que estou falando a verdade. Quando estive em Ponta Porã
fazendo um serviço, vi uns caras passar e disse pros meus
colegas: "Aqueles ali são suspeitos". E eles:
"Não olha, não, que aqueles caras são
muambeiros". "Como, não olha?" "Não olha
porque eles vão marcar a gente aqui, depois você vai embora
e a gente fica." É assim, porque a mãe do camarada e a
irmã trabalhavam no banco em que o gerente era irmão do
traficante. O cara da Receita é primo do contrabandista.
Sérgio de Souza - Mas como foi a
infiltração, a história de Cuiabá?
Garisto - Era uma investigação em
cima de um traficante chamado Totó Garcia, o maior do Brasil
na época. Só para registrar: esse trabalho é que deu origem
à lei que proíbe o comércio de éter e acetona. Bom, em
Cuiabá, me apresentaram um subalterno dele, chamado Pina.
Verena Glass - Quem te apresentou?
Garisto - O informante que levei e
que depois eu não quis mais comigo, fiquei com medo que ele
pudesse virar pro lado dos caras de novo. Então fui
apresentado para esse Pina. Primeiro, eles querem testá-lo, têm
gente na própria Polícia Federal, naquela época tinham,
hoje não sei, mas na época eu até conhecia os agentes que
trabalhavam para eles. Também por isso eu tinha identidade
falsa, CPF falso, o meu era um caminhão apreendido mas com
documento quente, que a gente preencheu no Detran, com
autorização judicial. Não podia ter um furo. O repuxo do
serviço de infiltração é o pior que existe. Você fica
nervoso, dorme com o olho aberto.
Wagner Nabuco - Eles têm um serviço de
inteligência próprio?
Garisto - O do Cartel de Medellín
era perfeito. São profissionais, tinham até pessoal da DEA (Drug
Enforcement Administration) trabalhando para eles.
Fui apresentado para um agente da DEA na fazenda do
traficante. Pensei: "Tô ferrado". E tinha mais dois
colegas da Polícia Federal de Cuiabá, que levavam informações
para eles e foram lá me checar. E se um fosse da minha turma
da academia?
Marina Amaral - Eles também estavam
infiltrados?
Garisto - Não, eram servidores da
Polícia Federal de Cuiabá e levavam grana para dar informações
para os traficantes.
Cláudio Júlio Tognolli - Como começou
sua "carreira" no Cartel de Medellín?
Garisto - Com uma entrega de éter e
acetona na Bolívia. Normalmente é o primeiro teste, queriam
ver se eu tinha coragem de ir à Bolívia.
João de Barros - Você tinha uma
empresa em São Paulo?
Garisto - Tinha, com filial em Campo
Grande e Cuiabá, legalizada, quente. Naquela época não era
proibida a venda de éter e acetona. Eles não tinham esse
esquema, eu que montei. Aí passei a ser o rei do éter e
acetona. Porque eles compravam de mim com toda a garantia.
Antes, eles mandavam intermediários aqui buscar. A gente
ficava de olho e descobria.
Wagner Nabuco - Como você operava?
Garisto - Comprava o éter e a
acetona na Rhodia ou na Del Nero, que é uma distribuidora, e
mandava de trem para Campo Grande. Lá, um caminhão meu
pegava os tambores e levava para Cuiabá. Daí tínhamos que
entregar onde eles mandavam: Alto Paraguai, Diamantina,
Acorizal, aquelas cidades pequenininhas onde eles têm os
garimpos com os campos de pouso para os Cessna. Eles tiram o
banco traseiro do Cessna e colocam um tambor de éter e um de
acetona, que eles chamam de "casal", amarram aquilo
e levam pro traficante, só aí que a mercadoria se torna
ilegal. Então, o cara me convidou pra ir junto...
João de Barros — Para onde?
Garisto - Uma cidadezinha boliviana
chamada Porto Soares, e depois uma outra, São Matias, que é
mais pro lado de Cáceres.
João de Barros - E ali são bolivianos
ou brasileiros?
Garisto - No refino, normalmente são
bolivianos.
Marina Amaral - Você acompanhava a
volta da droga para o Brasil?
Garisto - Eu não mexia com droga,
foi uma condição que coloquei. Que é uma coisa também que
você ganha a confiança deles, por não demonstrar interesse.
O meu objetivo era entregar o éter e a acetona até descobrir
o laboratório de uma tal de família Herrera. Era interesse
do governo americano, esse trabalho todo que fiz. Coisa que
combati muito tempo, porque o americano sempre deu dinheiro,
tudo pra fazer serviço da droga que vai para eles, a droga
que vem pros teus filhos aqui não lhes interessa. E a gente,
funcionários da Polícia Federal, trabalhando pros
americanos, fazendo o que eles bem entendem...
Sérgio de Souza - Ordens diretas?
Garisto - Ordem da Polícia Federal,
mas eles praticamente comandavam a Polícia Federal na época.
Cláudio Júlio Tognolli - Havia um
ponto de encontro com eles na rua Marquês de Paranaguá, não
é?
Garisto - Do consulado americano.
Hoje funciona dentro do consulado.
Wagner Nabuco - Havia um contato formal?
Por exemplo: o diretor geral da Polícia Federal se reúne com
o diretor...
Garisto - Com o diretor da DEA. Lá
fora se estabelece isso.
Wagner Nabuco - Vira documento?
Garisto - Vira documento. Não
falando que a gente tem que obedecer, claro. Hoje, a Polícia
Federal tem uma estrutura muito melhor, mas naquela época a
estrutura era miserável. Então, eles chegavam aqui com 1
milhão de dólares e controlavam a Polícia Federal. Traziam
a informação de fora, quem era o grande traficante, traziam
informantes da França que iam trabalhar com você e você
simplesmente executava o serviço que teria que ser deles. Aí,
pô, eu não sou da ONU, sou da Polícia Federal do Brasil,
tenho que coibir o tráfico primeiro aqui, mas não era isso
que a DEA queria. Esse serviço que fiz pra pegarem a família
Herrera é porque ela tinha causado a morte de um agente da
DEA no México e eles queriam o troco.
João de Barros - Como é que você
repassava para a Polícia Federal as informações que
obtinha?
Garisto - Eu não precisava passar
muita informação, porque o objetivo era a família Herrera.
Ficava três ou quatro meses sem falar com ninguém. Porque,
se você faz um contato e dá um furo, acabou tudo.
Verena Glass - E o dinheiro que você
fez com a venda do éter?
Garisto - Devolvi para a Polícia
Federal. Hoje, me sinto o maior otário do mundo. (risos)
Estou sendo sincero, se fosse hoje não sei se faria a mesma
coisa. No primeiro serviço lucrei 100.000 dólares. Pra
entregar trinta tambores.
Verena Glass - O capital inicial era de
quem?
Garisto - Era da DEA, que dava para
a Polícia Federal. Mas, voltando: aí marquei o encontro com
o Totó Garcia no aeroporto de Cuiabá, e me aparece um senhor
muito bem vestido que pergunta o que é que eu queria com o
Totó Garcia, que era o chefe. Eu falei: "Tenho comércio
com ele, trabalho com produtos químicos". E o homem
disse: "Sou tio dele e vim aqui pra saber... Você tem
documento aí?" Era simplesmente o senador Benedito
Canelas, do Mato Grosso. Um senador da República
"funcionário" do Totó.
Verena Glass - Qual o ano?
Garisto - 1978.
Marina Amaral - Ele era da Arena?
Garisto - Era, daqueles
indicadões,
biônico. Aí fiz o relatório informando que fiquei com medo,
pois senador tem como obter informações de várias coisas.
Mas acabei fazendo amizade com ele, que gostou de mim. Dali o
Totó fez amizade comigo e comecei a desenvolver o trabalho.
Marina Amaral - Que tipo de pessoa ele
era, tinha outras atividades?
Garisto - Era piloto e prestava
serviço de táxi aéreo. Bom, fui entregando, entregando e
uma hora ele disse: "Agora vamos parar com esse
amadorismo, vou apresentar você pros Herrera". Aí me
levaram numa fazenda, saindo da fronteira do Brasil onde nasce
o rio Paraguai. Era ali que eles tinham um garimpo e, passando
um pouco, já é Bolívia. A fazenda era no meio do mato, não
tinha nada e eu pensei: "Onde é que essa desgraça vai
pousar?" Aí aparece uma pista de pouso no meio do mato,
asfaltada, com pino de luz, parecendo um aeroporto de Ribeirão
Preto. (risos). Eu pensei: "Isso aqui é uma base
militar". De cima achei que fosse. Vi uns caras
camuflados, de AR-15. Era a fazenda dos Herrera. A família
estava na piscina, igual a esses filmes de cinema, no meio do
mato e com todo o conforto, Lear-Jet dentro de um hangar. Os
Herrera controlavam quase todo o exército boliviano...
Marina Amaral - Mas o que é o
"garimpo"?
Garisto — Garimpo mesmo. Eles
usavam pra lavar dinheiro, no caso era garimpo de diamante.
Perguntei depois pro Totó: "Como vocês fazem pra lavar
dinheiro?" "A gente encontra uma pedra no meu
garimpo, que é registrado, inclusive a pedra já vem
lapidada." (risos) Então, na fazenda me
apresentaram para o chefão, o Herrera, dizendo que eu era o
Carlinhos que tinha revolucionado a entrega de éter e
acetona, que era o calo deles, até hoje é o calo deles. Eles
têm dois calos: lavagem do dinheiro e produto químico.
Marina Amaral - Se fiscalizar o garimpo,
a lavagem de dinheiro e a venda de acetona se restringem
muito?
Garisto - Hoje eles não lavam mais
assim, hoje tem os bancos, as grandes instituições
financeiras estão lavando dinheiro, que é uma coisa mais
moderna, já é coisa de CPI, né? Hoje, a lavagem é quase
aberta, não é? Temos o Uruguai aqui, que não tem nenhum
problema. Conclusão, ganhei a confiança da família, que era
o que a DEA queria. Estava chegando perto de terminar meu
serviço. Na última entrega, os americanos, como sempre, de
Hollywood, me passaram os tambores com bip dentro, um
navegador com uma bateria daquelas da NASA que dura não sei
quanto tempo, e soldaram o fundo, ficava um pequeno fundo
falso. Trouxeram dez tambores desses dos Estados Unidos e aí
levamos na Rhodia para encher.
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"Os bancos, as grandes instituições
financeiras estão lavando dinheiro, é uma coisa mais
moderna. Hoje, a lavagem é quase aberta, não é?
Temos o Uruguai aqui, que não tem nenhum problema."
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Marina Amaral - A Rhodia sabia?
Garisto - Não, cheguei lá e falei
que a gente queria reaproveitar aqueles tambores, e levei os
tambores cheios.
Mylton Severiano - E você sabia de
tudo?
Garisto - Sabia. Inclusive tem um
pelinho assim, um fiozinho bem fininho que era a antena, e
tinha que passar barro pro pessoal não ver. Aí fui entregar
os tambores, havia até a comemoração de aniversário de um
cara, uma festa desgraçada, tinha general do exército
boliviano pra tudo que era lado. Aí um cara falou:
"Gostei do teu esquema". E me levou num galpão,
metade desta sala, cheio de dinheiro, vocês já assistiram à
Máquina Mortífera 2, que tem um container
cheio de grana, tudo dólar? Aí o cara pegou 50.000 dólares
e me deu: "Isso aqui é pra você, estamos contentes, não
faltou mais éter nem acetona, a produção tá a todo
vapor".
Marina Amaral - Nem essa gratificação
você pegou?
Garisto - Não peguei, você
acredita? Hoje pegaria. (risos) Bom, aí seriam
entregues os tambores e a operação do flagrante tinha que
contar com uma equipe especial do exército boliviano, Os
Leopardos, que existe lá, mas já mataram quase todos. A
Lidia Gueiler era presidente da República na época, 1979, e
criou esse grupo de elite, por interferência dos Estados
Unidos, pra combater o tráfico. Eram limpos mesmo esses
Leopardos, nacionalistas fanáticos, acreditavam que tinham
que limpar o país da droga e tal. Eles auxiliaram a DEA a
localizar os tambores de fundo falso. Com aqueles mecanismos
dos americanos, satélite e tudo, eles descobriram as fazendas
todas.
Marina Amaral - Foram presos os Herrera?
Garisto - Foi todo mundo preso e
foram toneladas de cocaína, vários aviões, tambores de éter
e acetona, vários milhões de dólares; descobriram as
fazendas e os laboratórios. Porque cada tambor daqueles era
levado para um canto.
Cláudio Júlio Tognolli - Logo em
seguida veio a preparação do golpe contra a Lidia Gueiler.
Garisto - Por causa da prisão do
Herrera é que anteciparam o golpe. Aquela vez que eu estava
na fazenda eles já estavam bolando o golpe. O García Meza
estava lá, eu não sabia que era ele. Um tempo depois, abro
uma Veja e está lá: o comandante do exército
boliviano veio ao Brasil para uma operação conjunta contra
as drogas na fronteira. Olhei assim e: "Pô, esse cara
estava lá na fazenda do Herrera".. Mandei um relatório
pra Brasília, cancelaram a participação nossa na operação
final por causa disso.
Sérgio de Souza - E o que aconteceu com
a família Herrera?
Garisto - A família Herrera ficou
presa três meses, aí deram o golpe na Lidia Gueiler e acabou
tudo. Ela se asilou, os Herrera seriam mortos depois, na
guerra com o Pablo Escobar. A CIA armou o golpe, e quem os
militares botaram no lugar de Lidia Gueiler? O García Meza! (Que
cairia depois de um ano, acusado de narcotráfico).
Mylton Severiano - Mas a CIA não sabia
que ele era do tráfico?
Garisto - O governo americano
incentivou o golpe para botar o García Meza mesmo sabendo que
ele era envolvido com droga, porque a Lidia Gueiler estava
querendo instalar um socialismo independente, querendo encarar
os americanos. Tomamos uma revolução aqui por causa disso
também. Todo mundo toma. E se não cuidar toma de novo. Não
acabou essa ameaça.
Mylton Severiano - E essa criticada
Operação Mandacaru, em Pernambuco?
Garisto - Isso é burrice, vaidade,
megalomania de um general chamado Alberto Cardoso. A maioria
dos militares foi contra. Ele está expondo o Exército ao ridículo.
Está querendo dar uma importância ao projeto que o Exército
não deu. É como a CIA. Antigamente, a CIA mexia em quê? Rússia,
bomba atômica, foguete. Caiu o Muro de Berlim, acabou a
guerra fria, e você precisa dar utilidade ao aparato. Existe
hoje nos Estados Unidos uma guerra entre a CIA e a DEA, pra quê?
Para investigar o tráfico. É que aqui tudo acontece sempre
atrasado, a Abin que foi criada agora, a Agência Brasileira
de Inteligência, é um SNI com um pouquinho de chantilly em
volta. Vi como é que funciona tudo. Foi criada depois de um
fracasso, o do grampo do BNDES. Vocês acompanharam. Se fosse
um país sério, poderia criar daqui a um ano, com outro nome,
porque foram os agentes temporários da Abin que fizeram
aquela desgraça toda. Eles se juntaram com ex-agentes
federais e aquele grampo, na minha opinião, foi feito a mando
do alto, havia medo de que algo nas privatizações desse
errado, era muito dinheiro envolvido em vésperas de eleição.
E o general Cardoso mais uma vez pegou os arapongas dele e
disse: "Acompanha esse troço". E eles resolveram
grampear. Tudo com medo da eleição. Como sabem da existência
de um monte de aproveitadores e corruptos, tinham medo de uma
roubalheira nas privatizações. Aí descobriram o grampo com
um monte de conversas de ministro e altos funcionários
interferindo no processo, ajudando uns e prejudicando outros,
até o presidente FHC caiu no grampo. Aí deu bode, "não
foi ninguém".. O general vem e diz que alguém deixou
embaixo da ponte as fitas que conseguiu. Aí descobrem que o
chefe da Abin do Rio de Janeiro é que mandou fazer o grampo,
aparece o Telmo, que foi da Polícia Federal, que é um
sujeito demitido da polícia por corrupção, metido com o
pessoal remanescente do SNI, as viúvas do golpe, que estão
perdidas por aí. E não estão mortos, não, entendeu?
Marina Amaral - E onde estão esses
militares?
Garisto - A maioria foi pra reserva,
se aposentou, mas soube que alguns estão sendo chamados para
a Abin. Agora, aqueles que eram marcados da tortura, que estão
nos livros dos padres, esses não voltam, porque senão vai
dar zica. Mas o pessoalzinho que não foi identificado
no livro de ninguém volta. Eles forçaram para botar o
Campelo na Federal. Aí alguém lembrou que ele torturou o
padre". "Então vamos ver se ele torturou o
padre." E deu aquele bode todo.
João de Barros — Hoje, o diretor
geral da Federal é o...
Garisto - Agílio Monteiro Filho.
João de Barros - Ele responde pra quem?
Garisto -
Ele responde ao Ministério
da Justiça. Em tese, porque está lá o general Cardoso, da
presidência da República, fungando na orelha dele. O
Chelloti caiu, tenho uma amizade com o Chelloti muito grande.
Foi ele que começou essa reforma da Polícia Federal, forte,
organizada. Só que o Chelloti se deixou envolver por uma AIDS
que existe no serviço público, que se chama vaidade,
"posso chegar aqui, posso chegar ali, posso até ser
senador". Aí veio aquela história do grampo que fizeram
no Júlio César, o assessor do presidente da República. Uma
fita que envolvia o presidente. Ficaram três anos
investigando se o Chelloti tinha mesmo a fita para poder tirá-lo
e, quando descobriram que não tinha, tiraram.
Sérgio de Souza - E não tinha fita
mesmo?
Garisto - Não tinha a que eles
esperavam. Tinha a fita, mas eram coisas pessoais do
presidente, coisas que todos temos, às vezes. Eram coisas que
iam causar prejuízo para o presidente na parte moral, mas não
derrubavam ninguém. E eles queriam supor que o presidente
teria sido envolvido naquela grana do Sivam. E aí entra o
pessoal da Abin para querer saber o que eles pensavam que o
Chelloti sabia.
Cláudio Júlio Tognolli - Houve toda
aquela confusão, o Alberto Cardoso se metendo com a Polícia
Federal e as fronteiras continuam um queijo suíço, não é?
Garisto - Continuam, claro, nas
fronteiras poderia estar o efetivo do Exército. Entra em um
quartel do Exército em lugares paradisíacos e vê o que eles
estão fazendo. "Ah, o Garisto tem bronca do Exército."
Não tenho bronca nenhuma, a única bronca que tenho é quando
eles invadiram a Polícia Federal na greve, eu era o
presidente do sindicato e da federação, estava comandando
aquela greve e eles invadiram. Essa história é interessante
pra vocês porque era golpe de Estado aquilo. Tenho provas de
que era golpe de Estado.
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"A Abin é um SNI com um
pouquinho de chantilly. Criada depois de um fracasso,
o do grampo do BNDES. Foram os agentes temporários da Abin
que fizeram aquela desgraça toda."
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João de Barros - Você estava falando,
se for agora num quartel?
Garisto - Você vai pegar o pessoal
jogando basquete, levando a mulher do coronel para o
supermercado, os coronéis e generais jogando peteca. Não
estou desmerecendo as Forças Armadas, eles é que estão se
ferrando. Estão ganhando mal, estão usando equipamento todo
enferrujado. Tem muita coisa errada como na Polícia Federal,
por exemplo, você vê no aeroporto aquele bonitinho de terno,
aquelas menininhas, alguém aqui acha que são da Polícia
Federal? São funcionários da Protege, empresa de segurança.
São contratados. Fui contra, entrei na Justiça, entrei na
Procuradoria.
Wagner Nabuco - Como é que é? No
aeroporto, aquele pessoal do raio X não é da Polícia
Federal?
Garisto - Não, são da Protege,
quando chefiei o aeroporto eram, hoje não sei se ela ganhou o
contrato de novo. Se não for da Protege, é de outra empresa
de segurança privada. E outra: eles custam para a nação
mais do que um agente federal.
Wagner Nabuco - Também aquele que checa
o nosso passaporte?
Garisto - Não, esse do guichê é
da Polícia Federal. Para impedir a viagem de alguém, tem que
ser funcionário competente. Mas aquele funcionário da
empresa contratada, se achar cocaína, não pode fazer nada. Não
pode abrir a mala de ninguém, é funcionário incompetente,
por lei. É usurpação de função. Entrei na Justiça e não
julgaram até hoje.
Wagner Nabuco - A maioria das empresas
de segurança é dirigida por coronéis?
Garisto - Sim. Militares em geral ou
delegados de polícia.
Wagner Nabuco - O pessoal da reserva.
Garisto - Do Exército, da Aeronáutica,
da PM tem muito. Até o Fleury tinha empresa de segurança, o
falecido.
Verena Glass - Depois do episódio na
Bolívia, o que você fez?
Garisto - Vim trabalhar no
entorpecentes, em São Paulo. Montamos um serviço de informação
que não havia. De drogas, esse em que batalho. Quando o
Galdino foi diretor, tentou criar um serviço desses, mas era
um SNI disfarçado. Aí fui pra Folha denunciar, o
Tognolli deu na Folha: "Galdino tenta recriar SNI"..
Porque a Polícia Federal foi usada para esquentar as mortes,
as roubalheiras e as falcatruas dos DOI-Codi da vida. Tinha
que ter um cartório para esquentar aquilo. Não pode ter cartório
no Exército, nem na Aeronáutica, nem na PM, então vamos
criar um na Polícia Federal para fazer aquelas porcarias que
terminaram na Justiça Militar. Só que, quando começaram a
fazer o concurso público, o primeiro foi em 1973, começou a
aparecer garoto de faculdade, tipo eu. Começamos a entrar na
polícia. E a gente começou a falar: "Não, eu não vou
fazer isso aí. Isso aí não tá legal, isso aí tá por
fora". Aí começou a mesclar. Até que fundamos o
sindicato, em 1988, e viramos a mesa: "Não vamos mais
fazer esse troço, não tem mais informação, vamos denunciar
e acabamos com todo mundo". Hoje, a Polícia Federal tem
a credibilidade que tem aí.. Por quê?
Mylton Severiano - O que você acha da
unificação da Polícia Militar com a Civil?
Garisto - Polícia Militar não
existe. Ou é militar ou é polícia. A academia treina o cara
para ser militar, uma estratégia de combate. O policial só
tem que ter estratégia de combate para se salvar ou salvar a
vida de terceiros, não para atacar.
Wagner Nabuco - Você acha que isso tem
a ver com a concepção das PMs depois da Revolução de 1964?
Garisto - Claro. Toda polícia no
Brasil tem o resquício da ditadura, porque os comandantes e
os generais são os mesmos que eram tenentes naquela época e
adoravam a revolução. Eram os meninos que torciam para que
desse certo até hoje o Castelo Branco. Hoje, eles são os
generais, os coronéis, a mentalidade é a mesma. Eles se
moldaram porque deu bronca, começou a pintar livro, vocês
sentaram o pau, quem é torturador não assume nada: "Então
não sou mais, sou direitos humanos". Mas eles estão aí
ainda. E muito arraigados na Polícia Federal, na Civil, a
maioria dos delegados gerais de polícia é dessa época.
Cláudio Júlio Tognolli - E o Tuma? Você
é o maior adversário que o Tuma teve. Qual foi o papel que
vocês sempre apontaram como nefasto do Tuma na Polícia
Federal?
Garisto - O Tuma, houve um tempo em
que era uma figura pública intocável. Todo mundo acha que
ele era o cão chupando manga e até acham que ele teve 5 milhões
de votos pro Senado. Costumo falar que o Tuma é um fenômeno
da mídia porque ele tinha um grupo que qualquer apreensãozinha
ele já tinha os contatos. Ele tinha um projeto para a presidência
da República, ou ainda tem. Era o projeto PR, Papa Romeu,
eles têm escrito isso em dossiê, o Comando Delta é que
interfere... se o Comando Delta sair na revista, cai a casa
toda.
Sérgio de Souza - O que é o Comando
Delta?
Garisto -
O Comando Delta é a fábrica
de presidentes, é o que comanda o sistema brasileiro, que fez
a reunião para escolher o Fernando Henrique, que já deve
estar fazendo reunião para convidar outro.
João de Barros - Quem faz parte desse
Comando?
Garisto - Ah, esse comando é
florido! Não vou entrar nessa, que essa eu não posso.
Sérgio de Souza - Não precisa dizer os
nomes, só os cargos, ou de que áreas.
Garisto - De todas. De médico a político,
a tudo. Eles se reúnem e não existe uma coisa planejada. O
camarada, por exemplo, é dono de uma escola e está faturando
milhões, se entrar o Lula: "Aí ele vai me ferrar, estou
ganhando 100 milhões por ano...".
Quase todos - Di Genio?
Garisto - Vocês que estão falando.
Aí tem, por exemplo, um banqueiro — quero ver vocês
falarem agora.
Wagner Nabuco - Tem muitos.
Garisto - Aí você tem o sistema
bancário, por exemplo, e os caras faturando um bi por ano,
você pega o último balanço do banco e ele passa a ser o
primeiro — estou dando dica pra caramba —, aí você vê
um cara desses correr risco de entrar um maluco qualquer na
presidência da República; não é aquele conluio de conspiração
para matar o Kennedy, mas é aquela coisa que você se
organiza para manter o status quo: "Vem cá, meu
irmão, o que vamos fazer?" E eles chamam de Comando
Delta: "Não está na hora de reunir o Comando, não?"
Então, eles chamam um, chamam o outro, se reúnem.
Wagner Nabuco - Tem um secretário?
Garisto - Não tem secretário, nem
presidente, não é conspiração, é informal, cuidam dos
interesses deles com as armas que têm: grana!
João de Barros - Mas é palaciano?
Garisto -
É pré-palaciano. E
depois levam o resultado. Então, você reúne a empreiteira
que faturou não sei quantos milhões, o banqueiro que ganha não
sei quantos milhões, e aí você tem que eleger uma pessoa
para comandar os trabalhos, como na maçonaria tem o grão-mestre,
aquelas coisas.
Verena Glass - Tem consultor externo?
Garisto - Tem de tudo. Hoje, você
está conversando, amanhã os caras estão entregando. Uma vez
dei uma entrevista na televisão e falei: "O Comando
Delta acaba escolhendo um presidente aí". Só falei
isso, e a entrevistadora, na hora: "Quem é o Comando
Delta?" Eu: "As pessoas ‘de bem’ do país,
pessoas que comandam a economia, o mercado". Rapaz, deu
um bode desgraçado! Ela me ligou depois de dois dias e disse:
"Garisto, o que tem de gente ligando querendo saber do
Comando Delta". Falei: "Isso é coisa do Chuck
Norris, Comando Delta 2, 3, pára com isso! Tô fora, porque
eles são muito fortes". São unidos, ricos e
inteligentes. Aquela operação toda feita no seqüestro do
Diniz, organizado, bonitinho, vocês da mídia são os donos
dela através do representante maior de vocês — daqui a
pouco estou falando o nome, que já ganhou a segunda tartaruga
agora. Ele ganhou a segunda tartaruga porque a outra morreu. (risos)
Sérgio de Souza - Ficou para trás
aquela história do golpe de Estado.
Garisto - O golpe que não houve.
Estávamos fazendo uma greve e eu estava comandando, era
presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais...
Sérgio de Souza - Que ano era isso?
Garisto - 1994. Aí tem nome, e eu
dou porque falei pra eles que ia escrever um livro e eles
falaram que podia botar, então está liberado: é o Moroni
Torgan e o deputado federal Luciano Pizzatto, que estão na
ativa ainda. O Luciano Pizzatto, na época, era presidente da
Comissão de Segurança Nacional da Câmara, muito ligado aos
militares. E o Moroni era líder do governo do Itamar. É meu
amigo particular, já o conhecia desde aquela época. Aí estávamos
comandando aquela greve e dez dias, quinze dias, a Veja
deu capa, a IstoÉ deu capa. A Veja deu:
"Baderneiros ameaçam autoridade do governo". E o
distintivo da Polícia Federal. A IstoÉ deu:
"Rebelião dos tiras".. E o distintivo da Polícia
Federal. E aí fui no Jô, fui em tudo quanto é canto por
conta da greve. O que queríamos? Queríamos o mesmo salário
que a Polícia Civil do Distrito Federal recebia. Porque tinha
a lei 7.702 que dizia: "Policial federal tem que ganhar
igual a policial civil". E não estavam cumprindo. Você
é um policial, obriga todo mundo a cumprir a lei e não
cumprem pro policial, então fomos pra greve. E aí todos os
Estados entraram em greve, dez dias, vinte, trinta, quarenta,
cinqüenta dias. "Como é que vamos acabar essa
greve?" Aí eles queriam assumir — eles, vou dar nomes
—, queriam assumir o controle da Polícia Federal. Os
militares, as viúvas do SNI querem o controle da Polícia
Federal porque é o instituto legal que detém hoje as coisas
que têm que ser feitas no país: Collor, PC, agora esses
deputados todos aí, você vê que rola tudo na Federal. E os
militares tiveram o comando da Polícia Federal desde a sua
criação. Ela foi criada pra ser um braço civil deles. E
botaram lá o general Bandeira, o coronel Moacir Coelho,
depois o coronel Araripe. O primeiro civil foi o Romeu Tuma,
que era superintendente da Polícia Federal em São Paulo,
colocado pelo senhor Georges Gazale, que era amigo pessoal do
Figueiredo. "Ah! O primeiro civil." Civil com aspas,
né? Porque o Tuma não é propriamente um civil: era chefe do
DOPS. Comandou aquilo tudo, mas passou como bonzinho, os
amigos que trabalharam com ele foram quase todos execrados na
mídia pelas merdas que fizeram e depois foram abandonados
pelo chefe.
Sérgio de Souza - Dizem até que ele
acabou com a tortura nos porões.
Garisto -
Isso é brincadeira! Você
levanta os caras que sumiram na época em que ele era diretor
do DOPS. Porque quem comandava a tortura era o Fleury, não
era ele. Só que ele sabia, o Fleury não fazia nada sem ele.
E, é lógico, ele passou incólume, sorte dele, é
inteligente, estamos em outra época e ninguém quer caçar
defunto. Aí o que acontece? O Tuma manteve o mesmo controle,
passava as informações todas pros milicos. Os milicos:
"Fulano não quer aprovar a compra dos tanques, quem é
ele?" "Eu vou levantar." É assim que se
processavam as coisas. Aquele maldito tráfico de influência
que se operava através da Polícia Federal. Mas ela foi
crescendo num processo de democratização, culminando com a
indicação: "Agora não pode mais colocar um militar,
porque o período não está permitindo mais, a Polícia
Federal cresceu, está investigando índio, terra, tudo, vamos
colocar um civil". Aí bota o Galdino, de formação
igualzinha à do Tuma. O Galdino foi acusado de tortura. O
livro Brasil! Nunca Mais tem o nome do Galdino. E ele
foi colocado de diretor, quer dizer, a mesma coisa. E se
reportava aos milicos daqui e de lá. Aí coloca um outro
ligado, mais um outro ligado, aí vem passando, você chega no
Chelloti. O Chelloti coloca uma mentalidade nova e não dá
bola para os milicos. Aí os milicos tinham que derrubar o
Chelloti, certo? E vem o coronel Wilson Brandi Romão, que foi
chefe da Conab e foi acusado de um enorme prejuízo na Conab,
deixou apodrecer feijão, aquele negócio todo. Como prêmio
por ter dado um prejuízo de 50 milhões à Conab, ele foi
assumir a Polícia Federal. Assumiu para acabar com a
indisciplina do sindicato, que estava ameaçando greve:
"Vamos botar um coronel de novo, que a disciplina está
sendo quebrada, está sendo rompida. O Tuma não tem mais
autoridade e nem o Galdino, vamos botar o coronel".
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"O Comando Delta é a fábrica de presidentes, é o que
comanda o sistema brasileiro, que faz a reunião para
escolher FHC, que já deve estar fazendo reunião pra
convidar outro."
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Francisco
Carlos Garisto
João de Barros - Aqui no centro?
Garisto - Aqui no centro, na esquina
da Antônio de Godói com Rio Branco, Santa Ifigênia, aquele
pedacinho ali. Eles fecharam a rua, desviaram o trânsito e
despejaram soldado. Percebi que eles iam fazer a invasão e o
Inocêncio Oliveira, que era um dos negociadores conosco, me
chamou no gabinete dele e falou: "Francisco Carlos
Garisto, conversei com o ministro da Justiça sobre aquela
disposição de vocês". Porque falei que ia deixar
duzentos homens armados com metralhadora lá para enfrentar o
Exército. Eu não ia, mas não podia falar que não ia, é
aquele jogo de greve: "Se invadir vai ter tiro". O
Inocêncio ficou com medo disso, o Itamar, todo mundo. Então
o Inocêncio falou: "Francisco Carlos Garisto, está
acontecendo isso, isso e isso, mas eu te garanto que não vai
ter invasão, tira o pessoal de lá". Já achei
esquisito. Pra que vou tirar os meus homens de lá se ele está
me garantindo que não vai ter invasão? Falei: "Tá bom,
deputado, tá bom". Aí eu vou pra porta da Polícia
Federal: "Olha, pessoal, vamos revezar, vão ficar quinze
aqui e à noite mais quinze e tal". A Globo estava com link
no local — comunicação direta. É como essas transmissões
de futebol, fica aberta para entrar no ar na hora que você
quiser. Pensei: "Vai ter invasão, a Globo já está
sabendo que vai ter invasão, deixa eu tirar meu povo daqui
que não quero que morra ninguém". E disse:
"Pessoal, vamos embora daqui, todo mundo, o Inocêncio
Oliveira, presidente da Câmara, garantiu que não vai ter
nada aqui". Quando deu 10 horas da noite, eles chegaram
com helicóptero, tanque, na Esplanada dos Ministérios, saiu
na edição extra do Jornal Nacional, ficaram fazendo
exibição que era para amedrontar, já aproveitava e dava um
susto no Congresso todo. Aí invadiram a Polícia Federal de
Brasília também, já haviam invadido São Paulo. No mesmo
dia, estou almoçando com o Moroni na Câmara, me liga o
agente Simão, delegado sindical de Foz do Iguaçu:
"Gaga, perdemos a ponte! O Exército está aqui". Eu
falei: "O Exército em Foz do Iguaçu também?"
Estranhei porque estávamos fazendo operação padrão lá.
Eu: "E vocês estavam aí?" "Estávamos, o que
eu faço?" Eu disse: "Sai daí, se manda, fuzil
contra metralhadora é caca na certa". "Mas não
deixa ninguém?" "Não, se manda, é Exército, o
dono de tudo, ele fica tomando conta do posto agora." Aí
o Moroni me perguntou: "Pô, invadiram Foz do Iguaçu?
Vamos ligar pro Pizzatto". Ele ligou pro Pizzatto, que é
do Paraná, tinha interesse. E aí o Pizzatto liga para o
ministro do Exército. O ministro disse: "Mandamos
invadir porque abandonaram o posto". E isso foi o que
informaram para o presidente da República, o ministro da
Justiça e o ministro do Exército. Eu disse: "Mentira,
acabei de falar com um agente pelo telefone e ele me perguntou
se era para sair! Se perguntou é porque estava lá". O
Moroni falou: "Isso está ficando perigoso, não é
melhor você repensar essa greve?" Eu disse: "Rapaz,
antes de invadirem São Paulo, eu tinha 80 por cento do
pessoal em greve, agora está 100 por cento". À noite
vem o Jornal Nacional e aparece a repórter com
o microfone na boca do Simão, que tinha falado comigo ao
telefone: "O senhor vai fazer o que agora?"
"Estávamos trabalhando, temos ordem da federação de
trabalhar aqui 30 por cento, o Exército chegou, agora eles vão
ficar com o trabalho e com a responsabilidade e vamos
embora." E ele aparece tirando o jaleco e a Globo vai
filmando. O presidente, na casa dele, viu esta merda, ligou
pro Alexandre Dupeyrat, ministro da Justiça. O Dupeyrat pega
e liga pra lá e cá. Estou dormindo, 2 horas da manhã, toca
o telefone, era o Moroni e queria que eu fosse na casa dele.
Quando entro na casa do Moroni, na sala está sentado o
ministro da Justiça, Alexandre Dupeyrat, o Moroni e mais um
assessor do Palácio do Planalto que eu não sabia quem era.
"E aí, Moroni, onde tá pegando?" "Garisto, o
ministro quer falar com vocês." E o ministro: "Seu
Garisto, é o seguinte: o presidente me chamou e está
preocupado com o negócio".. E eu: "Com a greve? É
só ele pagar a gratificação para nós e acaba a
greve". "Não, ele está preocupado porque algumas
pessoas do Exército estão mentindo para ele. Porque lá em São
Paulo fizeram a invasão e falaram que não tinha ninguém,
depois ele ficou sabendo que tinha. No Rio Grande do Sul,
falaram que os agentes colocaram palito nas fechaduras para
ninguém entrar, e depois ficamos sabendo que tinha mais
agente federal do lado de dentro que do lado de fora. Mas o
pior de tudo foi Foz do Iguaçu, que o presidente recebeu um
relatório do ministro do Exército, e isto é confidencial,
pelo amor de Deus, que vocês tinham abandonado a fronteira, o
presidente autorizou a invasão e na televisão viu que vocês
estavam lá. Aí ligou pro ministro do Exército de volta e o
Ministro falou que estava havendo confusão e que ele ia ver.
O presidente achou muito esquisito isso e eles já tinham
pedido para invadir também o Ceará." Aí o Moroni
falou: "Você não acha que isso pode ser outra coisa,
Gaga? Que eles estão querendo botar a tropa na rua? No
Brasil, quando põem a tropa na rua, para voltar é difícil e
eles não têm pretexto para colocar tropa em lugar
nenhum." Eu disse: "Moroni, isso é ficção sua, eu
quero saber se o ministro acha isso." O ministro disse:
"Essa é a idéia que o presidente tem e quer a ajuda de
vocês pra botar as tropas para fora da PF, porque se ele
botar agora desmoraliza e os militares vão chiar; como é que
a gente faz para essas tropas irem de volta pro quartel?"
Eu falei para o ministro: "Já que a palavra oficial do
senhor é de que estão falando em insurreição, golpe, vamos
fazer o seguinte: amanhã, o presidente declara que vai
negociar e eu falo o que já vinha cumprindo, que vou colocar
30 por cento do efetivo. Não estão falando que invadiram
porque não tinha os 30 por cento? Então o presidente sai
vencedor, porque ele não pode sair desmoralizado. O que eu
quero é a minha gratificação, o meu salário igual da
civil, não quero desmoralizar ninguém. Ele dá uma de bravo
no Jornal Nacional dizendo que não admite baderna e
que se botarmos os 30 por cento ele retira as tropas, dá uma
bronca na gente em nível nacional, a gente dá uma mijada pra
ele, bota os 30 por cento que já tinha e ele manda as tropas
para o quartel". No dia seguinte, o presidente: blablablá
e cacete na gente, eu falei: "Pessoal, é o sinal".
Aí eles recolheram as tropas. Mas depois ficamos muito
chateados porque eles sacanearam a gente: correram no Supremo
para tornar nossa greve ilegal, depois de 64 dias. O ministro
da Justiça nos traiu. Aí voltamos ao trabalho. A moçada
queria continuar a greve, eu disse: "Agora, não, contra
o Supremo é ir contra a lei, aí é revolução".
Wagner Nabuco - Quem era o ministro do
Exército?
Garisto - Era Zenildo Zoroastro de
Castro.
Wagner Nabuco - O Itamar o manteve
depois desse episódio?
Garisto - Ficou até com Fernando
Henrique, saiu na época da eleição. E o Itamar ficou com a
cara-de-pau tão grande porque aconteceu isso, ele viu que
cumprimos nossa parte e tinha uma chateação de não ter dado
o aumento. Mas causaria a ira do Exército, que também queria
aumento. Tanto é que o último decreto que ele assinou foi
concedendo gratificação para nós igual à da Polícia
Civil. O Romão me processou por greve, segurança nacional
etc. e fui demitido, mas o Itamar Franco me anistiou.
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"O presidente dá uma de bravo
no Jornal Nacional, dizendo que não admite baderna e
que se botarmos os 30 por cento ele retira as tropas, a
gente dá uma mijada pra ele, bota os 30 por cento que já
tinha e ele manda as tropas para o quartel."
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Cláudio Júlio Tognolli - Dos
personagens de quem você foi segurança oficial você tem
umas memórias boas. Primeiro, aquele episódio de o papa
falar com você uma palavra em português que ensinaram ele
errado na sacanagem.
Garisto - Foi que nem aquele
personagem do Jô Soares, o alemão, que falava "eu está
com coceira em meu bunda", porque falavam pra ele que
cabeça era bunda, lembra? Fomos designados para fazer a
segurança do papa em Aparecida do Norte. Aí a gente foi para
lá um mês antes, organizar a segurança, coisa de que gosto
demais. A segunda coisa de que gosto depois de entorpecentes
— de combater, esclareça-se — é organizar segurança.
Então, a gente organizou tudo lá em Aparecida, até umas árvores
foram removidas para pousar o helicóptero com o papa. E fui
escalado para ser o que a gente chama na segurança de durex.
O durex é aquele que cola no homem, se tiver um grito
tem que abafar o homem.
João de Barros - Quando foi essa visita
do papa?
Garisto - 1980, 1981. Ele desceu em
Aparecida, o recebi e fiquei com ele o tempo todo. Ele foi
aqui, ali, fazer a missa, já estava cansado, aí fomos almoçar
num seminário e depois do almoço ele ia dormir. Prepararam
um quarto para ele, aquelas beatas bordaram toda a roupa de
cama, fizeram um negócio bonito. A programação eu tinha no
bolso, onde ele ia dormir, onde ia almoçar etc. e aqueles
bispos todos andando junto, tinha bispo que vinha me empurrar
para eu não ficar perto dele. O papa então almoçou e entrou
no quarto para dormir. No planejamento, ele ia dormir meia
hora, depois de meia hora íamos sair para visitar outro seminário...
Sérgio de Souza - Você ficou dentro do
quarto?
Carlos Garisto - Não, você fica
fora. Botei o papa lá dentro, ele foi descansar, e aquele
monte de bispos escalou uns padres para chamá-los dez minutos
antes de o papa acordar, queriam tirar um pouco o sapato,
tinham andado muito, porque ali ninguém quase anda, aqueles
bispos gordos. (risos) Aí os colegas chegaram e falei
para eles aproveitarem e dar uma descansada, vinte minutos
para todo mundo. E sumiu todo o meu pessoal. Havia segurança
externa, a gente faz quatro cordões na rua, interno,
subinterno, até chegar no papa, tá louco! Então eu estava
tranqüilo lá dentro. Daqui a pouco vejo aquele vulto na
janela, vindo. Eu falei: "Porra, é o papa". Só
tinha ele lá dentro. Falei: "Porra, é ele que vem
vindo".. E ele vem amarrando aqueles troços aqui na
cintura. E falou: "Como vai?" (imitando o jeito
de falar do papa) Eu falei: "Tudo bem". E pá,
terminou de abrir a porta, só está ele e eu. E ele falou:
"Eu queria ir no capela, rezar um pouco". Peguei meu
mapa, que você anda com um mapa, e olhei: "A capela fica
ali na frente, Santidade, se o senhor quiser ir...".
"Você me leva no capela?" Eu falei:
"Levo". "Então vamos no capela." Saímos
caminhando. "O que é aquele que botou dentro do abóbora?
É abóbora?" Eu falei: "É abóbora". "O
que é aquilo outro?" Falei que tinha camarão e ele:
"Camarão eu conheço".. Falei que a outra coisa era
lagosta. "Lagosta, né, lagostim?" Íamos
conversando sobre o que ele tinha comido no almoço. Daqui a
pouco, não sei quem avisou os bispos lá, eles começam a
correr e tropeçando, descalços, sem sandália — que pegou
todo mundo desprevenido, porque não era hora de ele levantar.
Os caras vêm correndo, ele olha pra trás, porque faz
barulho, aqueles corredores de seminário, compridos. Olhei
pra trás, porque ouvi o barulho, pensei: "Que porra é
essa?" E o papa, porque ficou curioso também, olhou:
"Eh, lá vêm eles. Lá vêm eles, a minha turma de
puxo-sacos". (gargalhadas) Aí eu olhei para o
papa assim, falei: "Não são assessores?"
"Puxo-saco não é assessor?" (gargalhadas)
Alguém sacaneou o papa, entendeu? Porque pensei que ele
tivesse chamado de puxa-saco, o que na verdade é mesmo. Aí
eu quis confirmar: "Os assessores, Santidade?"
"Sim, mas assessores não chamam aqui puxo-saco?"
Quase eu falei que sim: "Não, puxa-saco é quando a
pessoa... É, é bem parecido". (risos)
Cláudio Júlio Tognolli - E quem foi o
presidente americano que o Mário Garnero recebeu em casa?
Garisto - Gerald Ford.
Cláudio Júlio Tognolli - E teve uma
história de uísque, mais complicada, como foi?
Garisto - Ah, mas isso aí, se eu
falar... tem omissão aí, né? Fomos fazer "avançada"
na casa do Mário Garnero. "Avançada" é você
chegar antes de tudo. Aí quero saber quem são os funcionários,
onde fica a caixa-d’água, porque o nego joga um veneno ali,
acabou. Quero saber o que vão servir, qual é a comida, quem
vai tomar conta da comida. Bota um agente ali: "Olha, você
é chefe da comida". "Onde é o banheiro do
homem?" "Ah, o banheiro é ali." Vamos lá,
manda o perito ver se tem bomba no banheiro, o perito saiu,
bota um agente. "Ó, aqui não entra mais ninguém."
Você tem que cobrir todo o lugar, é feita a varredura. A
casa do Mário Garnero era uma baita mansão no Morumbi, ele
ia receber o Gerald Ford à noite — foi no dia em que
inaugurou o prédio do Brasilinvest. O Mário Garnero não
tinha caído em desgraça ainda com o Roberto Marinho, não
estava em disputa da NEC ainda, depois que tomou a NEC virou
amigo de novo, né — é outra longa história, viu, Nossa
Senhora, essa é cabeluda! Bom, olhando tudo na casa, eu
falei: "Abre esse galpão aqui". "Ah, aí é
cadeado, é onde guarda isso, isso e aquilo". Eu falei:
"Abre esse negócio aí, pô, e se tem três iranianos aí
dentro esperando o presidente Ford? Se não abrir vou
arrombar, e se não arrombar o homem não vem pra cá". Aí
vem o filho do Mário Garnero, e abriu. Quando olhei, rapaz,
tinha trinta caixas de uísque: JB, Ballantines. Eu olhei:
"Abre essas caixas aí". Pode ser explosivo, né? Aí
abriu, tudo garrafa. Tudo sem o selo de importação
brasileiro. Falei: "Pô, isso aqui é muamba!"
"Vou dar o flagrante". Rapaz, veio até o
superintendente da Polícia Federal: "Larga isso".
"Então o senhor me dá por escrito que não é para
fazer o flagrante." "Não, não dou nada."
Porque é prevaricação isso. Eu falei: "Não vou
prevaricar, então só tem uma solução, é vocês me tirarem
da segurança. Vocês dizem que estou liberado, vou pra casa e
não sei se foi feito o flagrante ou não, mas pra mim é
flagrante e não fico mais aqui". Não preciso falar que
me dispensaram da segurança e não foi feito o flagrante e
tomaram o uísque todo lá com o Gerald Ford. Outra passagem
também dos quintais foi a do príncipe Charles. A gente
estava fazendo a segurança dele o dia todo, e foi aqui, foi
acolá, foi ver o Monumento do Ipiranga, até que à noite foi
pro Maksoud Plaza e acabou. Olhei o mapa, olhei a agenda, não
tem mais nada. Falei: "Vou manter o pessoal de corredor
aqui".
Sérgio de Souza - Aí você é durex de
novo, ou não?
Garisto - Era, e chefe da segurança
ali. Aí vem o chefe da segurança do príncipe falar comigo:
"Seu Garisto, tudo bem?" "Tudo bem." E o
tradutor traduzindo: "O príncipe quer ir no Sargentelli".
Nas mulatas, estava na maior onda, a boate Oba-Oba, do
Sargentelli. Falei: "Mas não tenho programação para
fazer isso". "É, mas ele quer, como é que
faz?" "Se for, vai por responsabilidade dele, que
aquilo é uma boate pública. A essa hora deve ter um bocado
de gente lá, se botar o pessoal pra fora vai dar merda. E não
tem programação, eu teria que ir lá, levar perito pra
ver." "Mas é um lugar em que ninguém espera que
ele vá, não fica tranqüilo?" "Tranqüilo até a
hora em que você me falou, agora já não é mais tranqüilo.
Se você me der um documento assinado que lá no Sargentelli
é por conta de vocês, vou junto, faço a segurança, não
tem problema." "É, mas aí você não tem
responsabilidade." "Não mesmo, num lugar que não
fiscalizei antes não posso garantir nada." Aí ele
entrou e falou para o príncipe, o príncipe quase teve uma síncope:
"O quê? E não sei o que". O cara sai de novo na
porta: "Seu Francisco Carlos Garisto, será que não
podia mandar um pessoal lá para dar uma olhada?" Aí
bota a cabeça entre nós dois o cabecinha de ouro, que parece
um grão-de-bico, né? Aí o cara falou em inglês com o
segurança dele, não entendi mas percebi que o príncipe
estava bravo com alguma coisa. Pelo semblante, a língua é
internacional. Perguntei: "O que houve que ele está
invocado?" "Ele está perguntando se você quer
proibir o príncipe da Inglaterra de sair?" Pensei:
"Ele está querendo me ferrar, se ele bota isso no papel
eu vou parar sei lá, em Uruguaiana". E falei: "Não
quero proibir o príncipe da Inglaterra de sair, quero preservá-lo
para ele chegar a ser rei". Aí o cara falou isso pra ele
e ele ficou todo sem graça. Pedi meia hora, fui lá,
preparamos tudo e acabamos indo para o Oba-Oba. E foi uma
farra. Saiu na Veja o príncipe dançando com as
mulatas, uma zorra desgraçada.
Sérgio de Souza - Voltando para a CPI
do narcotráfico, você acha que ela vai acabar em quê?
Garisto - Em pizza não acaba mais,
porque houve uma repercussão muito grande, deputado foi
cassado e preso, já produziu um resultado razoável dentro
dos padrões da impunidade brasileira. Acredito que deva
acabar pelas pressões políticas, pelo sistema que existe no
país, que não dá para alongar isso muito tempo, já vira
carne de vaca, saiu da manchete, só tem um dropezinho lá no
canto do jornal, no Brasil uma nova roubalheira encobre o
espanto da outra. O que vai acontecer? Vão transformar tudo
em inquérito policial para a Polícia Federal , como o caso
PC, o orçamento.
João de Barros - Mas há um Pablo
Escobar da galera brasileira?
Garisto -
Acho que sim. Tem vários
cabeções por aí que não são só traficantes, são os
financistas também. Só que a CPI não tem condições de
fazer essas investigações, a não ser que se transforme numa
CPI permanente, você coloque lá cinqüenta policiais
federais. Se o governo quisesse limpar, teria que botar cinqüenta
homens, avião, dinheiro, a Justiça colaborando com a CPI e
alguém orientando também.
Sérgio de Souza - O dossiê das Ilhas
Caymán, você viu fumaça ali?
Garisto - Não tenho nada oficial,
com nome, não. O pessoal se preocupa muito com Ilhas Caymán,
mas o grande fluxo de lavagem de dinheiro do Brasil é o
Uruguai. Por que você vai pegar um jatinho e ir até as Ilhas
Caymán, se você saí de carro pro Uruguai? Aquilo é furada,
tive acesso a algumas coisinhas, o Chelloti investigou
pessoalmente, ele esteve nas Ilhas Caymán, o que tinha ali
era suspeita de que a grana era do Sérgio Motta, no que ele
morreu perdeu o interesse, porque ele era aquele bonachão que
todo mundo gostava. Dos demais, ninguém falou e não
participei da investigação, mas aquele esquema de Fernando
Henrique, Mário Covas, aquilo é uma lenda. O que achei
esquisito é eles não se comportarem como inocentes, se
comportarem como acusados, mandando o general Cardoso
investigar. É por isso que todo mundo fica cabreiro, aí o
Chelotti falou que ia ouvir o presidente, já queriam que
tirasse o Chelloti. Tem que ouvir o presidente da República
se ele é suspeito, ele é um funcionário público que nem
eu. O Bill Clinton não foi ouvido? Tenho que pedir ao Supremo
uma autorização, tenho que ir na casa dele, mas posso
ouvi-lo, sim, como não? Aí queriam tirar o Chelloti porque
ele falou na imprensa. E o general aí pediu a cabeça do
Chelotti: "Oh, ele quer ouvir o presidente!" Por que
eles lembram de qual presidente? Médici, Figueiredo, Geisel,
esses são os presidentes que eles têm na cabeça, eles não
têm na cabeça que o presidente é um funcionário público,
que pode sofrer um impeachment como o Collor sofreu.
|
"Aí vem o filho do Mário Garnero, e abriu. Quando
olhei, rapaz, tinha trinta caixas de uísque: JB,
Ballantines. Tudo sem o selo de importação brasileiro.
Falei: 'Pô, isso aqui é muamba! Vou dar o
flagrante'."
|
|
Sérgio de Souza - Voltando ao narcotráfico,
que efeitos vem tendo a Senad?
Garisto - Eles nunca deram recursos
pra Polícia Federal ter uma delegacia de entorpecentes
profissional, atualizada, e criaram a Senad, com um novo
chefe, novo subchefe, secretária do chefe, datilógrafa do
chefe, motorista do chefe, setor A, B, C, D, E... Criaram toda
uma estrutura que não deram para a polícia. Aí você
critica que a polícia não funciona? Se você me der condições
para fazer determinada coisa e não faço, tudo bem, mas você
não me deu nada, diz que não funciono e monta outra?
Montaram isso, agora montaram a Abin para colher informações
para o presidente, e já fica se metendo com o negócio de
drogas?
Sérgio de Souza - É trombada pra todo
lado...
Garisto - É. Quem ganha com isso é
o tráfico. Causam um tumulto, uma confusão para que não
funcione, será que somos tão ignorantes assim, tão burros
assim de criar essas coisas para que não funcionem?
Sérgio de Souza - Isso é obra do
general Cardoso?
Garisto - O general Cardoso eu
entenderia se ele estivesse pensando como militar. E ele está
tentando arrumar atividade para os militares que praticamente
estão perdendo, porque o Exército está todo sucateado.
Desde o governo Sarney que as Forças Armadas estão sendo
sucateadas. Estão querendo acabar com as Forças Armadas, os
governantes como um todo, o Fernando Henrique também, e eles
estão vendo isso e querendo superar fazendo outras coisas. E
o general Cardoso, em vez de organizar as Forças Armadas,
quer ir atrás do tráfico de droga, quer criar o serviço de
informação para obter informações privilegiadas. Duvido
que dê certo. Quem quer fazer tudo acaba não fazendo nada
direito.
Sérgio de Souza - Mas em função de
que isso, é só por vaidade?
Garisto - Tem um pouco, mas o maior
motivo é a estrutura que está se criando em torno da
necessidade de o Exército, de as Forças Armadas fazerem
alguma coisa. Tem que criar algo pra eles fazerem
porque a própria função das Forças Armadas, de proteção,
o governo sucateia. Não estou metendo o pau nas Forças
Armadas, mas, do jeito que está, elas têm que ser
repensadas, para o bem delas próprias, porque vão perder a
função. Tem militar passando fome e a população não se
preocupa porque não vê a importância dele, tiraram a importância
que tinha. Você vai na fronteira e não encontra, ela está
aberta para todo mundo. Por que não bota um soldado lá?
"Não, lá é da Polícia Federal." Tem dois homens
da Polícia Federal...
Wagner Nabuco - Mas a Senad tem agentes
trabalhando para ela?
Garisto - Já tem alguns policiais
federais trabalhando lá e tem pessoas contratadas, puxa de um
ministério, puxa de outro...
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"Tenho uma tese de que existem grupos poderosos, políticos
poderosos que não querem uma Polícia Federal forte. Não
querem porque é um país de ladrões, de corruptos que não
querem dar asas pro gato pegar o rato."
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Wagner Nabuco - A Polícia Federal pode
passar quadro para eles?
Garisto - Pela lei, se eles
requisitarem, tem que ir. Somos obrigados a passar quadro para
eles e para a Abin também. Podem requisitar funcionário de
qualquer órgão.
Wagner Nabuco - E o Legislativo aprovou
essa lei?
Garisto - Aprovaram por unanimidade.
Com a maior cara-de-pau, o Michel Temer e o ACM falam disso.
Wagner Nabuco - Então virou lei, a Abin
pode requisitar?
Garisto - Pode requisitar funcionário
público federal de qualquer área para trabalhar na Abin. No
serviço de informações. E pode andar armado. Você já viu
araponga armado? É o único araponga do mundo que pode andar
armado. Exceto James Bond. Ele não tem que andar armado, ele
vai colher informações para o governo. O presidente vai
fazer uma visita a uma cidade do interior: "Ó, está mal
lá, vai tomar tomatada, então não vai". Ele precisa de
arma pra fazer isso?
Wagner Nabuco - Você acha que eles têm
o objetivo de incorporar todas as funções da Polícia
Federal?
Garisto - Não! A intenção é
dividir, porque a Federal cresceu muito — e tenho uma tese
comigo, não posso dar nomes nunca, mas tenho uma tese de que
existem grupos poderosos, políticos poderosos que não querem
uma Polícia Federal forte. Que todas as vezes em que ela
entre em evidência, que começa a pegar recursos, eles
arrebentam com a Federal. Não querem uma Polícia Federal
forte porque é um país de ladrões, de corruptos que não
querem dar asas pro gato pegar o rato. Querem é uma polícia
esfacelada, dividida, corrompida, fraca. Há muitos anos
estavam querendo criar uma secretaria de entorpecente, agora
conseguiram, e querem criar um departamento de estrangeiro, um
departamento de polícia fazendária e esfacelar a Polícia
Federal.
Wagner Nabuco - Tem isso na estrutura da
Abin?
Garisto - Na estrutura da Abin não
tem nada disso. Eles querem criar outro departamento, como
criaram a Senad, ela é o início disso, que eu venho
denunciando há muito tempo. Querem criar uma polícia
aeroportuária, porque a Infraero é o braço civil da Aeronáutica,
e vai ser privatizada, é o cabidão de emprego da Aeronáutica.
Querem tomar a fiscalização da Polícia Federal. Querem
criar a polícia aeroportuária subordinada à Aeronáutica.
Isso é tudo corporativismo. Vão criar cabidão que não
funciona, como é essa Senad. Ela só pode funcionar através
da Polícia Federal, mas tem o dinheiro e a Polícia Federal não
tem. Ela que coordena a operação, mas precisa da Polícia
Federal para operar. Ou extingue uma ou extingue outra. Teve
agora essa operação em Pernambuco e botaram o general Serra
para comandar, um neófito no assunto.
Wagner Nabuco - Ele coordenou qual operação?
Garisto - A Mandacaru. Ele chegou lá
no local, é a mesma coisa que soltar uma galinha dentro de um
cinema, ela não sabe onde está. Nessa Operação Mandacaru,
ele requisitou um monte de aviões. "Mas, general, avião
é caro!" "Tem que ter, tem que ter." Os aviões
foram pousar no aeroporto de Guararapes, Recife. "Que você
vai fazer com esses aviões?" "Tem que ter." Aí
pegaram os helicópteros, puxaram dois de Manaus — olhe onde
está Manaus, a diferença de distância de Recife, Cabrobó,
Salgueiro, ali no triângulo da maconha. Aí, mais quatro
helicópteros do Rio de Janeiro, pára-quedista, aquele monte
de pára-quedista. O que um pára-quedista vai fazer numa
plantação de maconha? Bota a cabeça pra funcionar: ele vai
saltar de pára-quedas lá no meio da plantação? Se tem
mesmo traficante lá, os caras enchem ele de bala no ar. Ainda
bem que não tinha traficante. Afinal, eles assistem Jornal
Nacional, Bóris Casoy e já sabiam da operação quinze
dias antes. Foram gastos 7,5 milhões de dólares para fazer
essa brincadeira. A Federal tem planejamentos pra gastar
120.000 numa área, 80.000 em outra e eles não dão. O
dinheiro que a gente tinha com a arrecadação que era dos
traficantes está indo pra eles, onde eles estão gastando não
sei, devem ter gasto tudo na Mandacaru. Pra juntar 7,5 milhões
de novo vai demorar cinco anos. Para que envolver o aparato
militar nisso aí? Para mostrar para os EUA, pois os EUA
querem que envolvam as Forças Armadas nisso. Porque os EUA
querem fazer frente à Colômbia. Você pensa que estão
preocupados com o tráfico na Colômbia? Estão preocupados
com a guerrilha sufocando o regime democrático da Colômbia.
Que com a guerrilha vão perder o controle da Colômbia. Estão
preocupados com as FARC, aqueles grupos de esquerda estão
tomando cidades, controlando um terço do país. Eles querem
envolver o Brasil para não precisar vir aqui. Aí o Brasil se
envolve, outro dia quase entrou de gaiato: montaram uma operação
que quase virou realidade, matam um soldadinho daqueles lá e
aí a gente entra em guerra com a Colômbia. É assim que eles
querem. E o Brasil entra como um bando de otários, e quando não
entra eles mandam o FMI pressionar. A pressão vem via empréstimo
que estava saindo e não sai mais. Pra mim, o grande lobo do
mundo são eles. Não é discurso de esquerda, não, pra mim
é realidade isso. O que eles fazem com a gente é uma piada.
Na escala menor, assim, de relações públicas, de relações
internacionais, de polícia... eles acham que somos todos
lixo, tudo analfabeto, tudo ignorante, comedor de banana. Não
dão valor nenhum pra você, não. E o governo entra. Essa
Senad foi criada pelo presidente Fernando Henrique pra dar uma
satisfação para o governo americano: "Agora tem uma
secretaria só de drogas". Botaram lá um homem íntegro,
o Maierovitch, mas ele é um teórico de crime organizado da
Itália, entende de Camorra, N’Dranguetta, Máfia siciliana,
napolitana, mas em termos de Brasil não sabe onde está.
Sérgio de Souza - Você trabalhou no
caso do Abílio Diniz, que você mencionou antes?
Garisto - Não no seqüestro, mas a
gente trabalhou numa investigação que foi feita em Brasília
em relação à parte política, para saber de envolvimentos,
e de repente parou. Quando a investigação estava ficando
boa, parou, ficou o dito pelo não dito, ninguém queria saber
mais, já estava todo mundo eleito, né? Começamos a
investigar por que apareceu uma camisa do PT lá, e eles
ficaram apavorados com o negócio da camiseta.
Cláudio Júlio Tognolli - Eu que dei a
foto no Jornal da Tarde e o Suplicy me processou.
Garisto - Eles queriam saber se
tinha procedência mesmo, de repente algum maluco do PT que se
juntou nos malucos num seqüestro. Aí eu falei com alguns
policiais civis que trabalharam no caso e eles: "Que
nada, essa camiseta botaram nos caras, não tem nada a
ver". A Globo gostou da brincadeira e meteu de dois em
dois minutos no ar. Agora, como é que tinham a camiseta, onde
foram arrumar a camiseta? Então existe uma vontade
premeditada de fazer as coisas e existem organismos que apóiam.
Aí vem o Comando Delta de novo. E funciona. O Comando está
gostando do Ciro agora.
João de Barros - O Comando Delta está
pro Ciro?
Garisto - É ficção minha. Mas o
Comando está gostando do Ciro, vamos ver até quando. Se ele
for bem até lá, vai ser ele mesmo, porque, entre ele e o
Lula, o pessoal não quer o Lula, nem ninguém do PT, nem PDT,
porque o Papai não quer, né? Já pensou o Brizola de
presidente? Rapaz, nos meus 48 anos de vida, com relação à
imprensa, pra mim o fato mais importante foi quando o Cid
Moreira foi ao Jornal Nacional: "Atendendo a
determinação judicial"... Ah, a cara do Cid Moreira!
Era o direito de resposta do Brizola. A juíza determinou que
fosse o mesmo locutor, no mesmo horário e com a mesma duração.
Eu estava na sala, acho que assinando um cheque, e aí:
"Atendendo a determinação judicial"... Eu disse:
"Não acredito!" Aí o Brizola descascou, na boca do
Cid Moreira. Quer dizer, é sinal de que o Brasil tem futuro,
vai chegar em algum lugar. A Justiça, o sistema funcionou, não
é? Hoje você vê o deputado Nilmário Miranda fazer
palestras na Academia de Polícia, sobre direitos humanos,
tortura etc., quer dizer, as coisas têm cura, é só você
cuidar da política. O sistema tem cura, mas é lento. O
brasileiro é lento. É um país sui generis,
diferente, não adianta querer fazer o Brasil diferente, ele
é assim, um garoto de quinhentos anos.
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Verena Glass - O sindicato você que
tinha fundado?
Garisto - O primeiro sindicato foi
fundado no Rio Grande do Sul, fundei aqui em São Paulo,
depois fomos fundando outros. Fui também o primeiro
presidente da Federação Nacional, fundada em Brasília. E
hoje temos 26 sindicatos e mais a Federação de todos os
funcionários da Polícia Federal. Então, quando fomos pra
greve, o coronel Romão não quis papo com a gente, disse que
não conversava com sindicalista. Por quê? Porque essa era
uma época em que morriam sindicalistas assassinados. Ele vê
o sindicalista como aidético com problema radiativo, não
quer contato. Começou a greve, ele falou: "Eles querem
fazer greve, que façam, mas vou punir todo mundo". E
começou a meter processo em todo mundo. E a moçada, o
contingente todo não teve medo, continuou em greve. Um belo
dia, um delegado que estava aqui em São Paulo, altamente
ligado à cúpula militar e que hoje é o corregedor geral da
Polícia Federal, o doutor Lobo, a pretexto de que os
policiais teriam abandonado o plantão deixando no prédio a
cocaína apreendida, as metralhadoras e os inquéritos
famosos, o ouro e isso e aquilo, a pretexto de que havíamos
abandonado tudo para fazer a greve, disse que o prédio estava
à mercê dos bandidos. Relatou pra Brasília e pediu a
intervenção do Exército na Polícia Federal de São Paulo.
E era mentira, porque mantivemos na ativa 30 por cento do
efetivo. Mas eles queriam tumulto. Aí o Exército invade a
Polícia Federal de São Paulo, Itamar Franco liberou pra
invadir. Acreditou no relato que o superintendente fez a
pedido do próprio Exército, coisa deles. E o Exército
desembarca então mil homens ali na rua Antônio de Godói,
com helicópteros, fuzis, metralhadoras de chão.
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