Revista Veja, 1741 de 06 de fevereiro de 2002

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Denuncia

Diretor de empreiteira acusa Maluf

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"As comissões eram de até 30%. Eu fazia os cálculos. Eu cuidava do caixa dois. Eu paguei propina.
Eu entreguei o pacote com dinheiro"

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Foto: Mario Rodrigues

O ex-prefeito Paulo Maluf: 5 bilhões de reais para as empreiteiras

Alexandre Secco

 O advogado Simeão Damasceno de Oliveira ocupou entre 1985 e 2001 o cargo de diretor financeiro do escritório da empreiteira Mendes Júnior, em São Paulo. Nessa função, controlava o fluxo de caixa da filial paulista da construtora, bem como o entra-e-sai de cheques e depósitos bancários. De acordo com seus cálculos, nos dezesseis anos em que esteve na companhia, Oliveira cuidou de contratos referentes a obras públicas que somaram 10 bilhões de reais. Na semana passada, um ano depois de se desligar da empresa, ele esteve no Ministério Público de São Paulo para contar que boa parte desse dinheiro foi parar no bolso de funcionários públicos e políticos na forma de propina. "Pelo menos 10% de tudo isso virou propina. É coisa de 1 bilhão de reais

de caixinhas", disse a VEJA o ex-diretor. Num depoimento que durou onze horas, Oliveira descreveu a existência de um esquema de pagamento de propinas sediado na Mendes Júnior do qual ele não era mera testemunha, mas protagonista. No momento mais importante do relato, o advogado listou os beneficiários das propinas e citou um nome de peso: Paulo Maluf.

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J. F. Diorio/AE

Oliveira: acusado de tentar fazer chantagem

Oliveira contou aos promotores que, durante a gestão de Paulo Maluf à frente da prefeitura de São Paulo (1993-1996), a Mendes Júnior viveu uma fase de grande lucratividade. Segundo o ex-diretor, em acordo com a assessoria do prefeito, a empreiteira superfaturava as obras, recebia o pagamento dentro do prazo acordado e compensava tamanha generosidade com propinas que chegavam a até 37,5% sobre o valor do contrato. "As comissões eram pesadas, mas tínhamos muitas obras." Ele se recorda dos principais números: "Tínhamos quase 600 milhões de reais em obras com a prefeitura. Uns 200 milhões de reais foram pagamento de propinas". Além de depor, Oliveira compareceu ao Ministério Público carregando uma mala recheada de documentos. Apresentou o resultado de uma coleção particular de papéis que vem organizando desde que entrou na empresa. São 10.000 cópias de cheques, registros originais de movimentações de caixa, cópias de contratos, recibos de pagamento e outros documentos contábeis. "Nunca tínhamos visto um depoimento amparado em tanta documentação", disse o promotor José Carlos Blat, que investiga o caso.

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Antonio Milena

Águas Espraiadas: 33 aditamentos ao contrato e superfaturamento

O papelório entregue aos promotores registra detalhadamente os pagamentos realizados pela Mendes Júnior a sete empresas que prestavam serviços para a construtora. Segundo seu depoimento, "elas são a chave para desvendar o esquema da propina". São todas empresas fantasmas, disse, "receberam milhões de reais sem nunca ter trabalhado". Ele contou que a Mendes Júnior pagava as prestadoras de serviços fantasmas mediante a apresentação de notas fiscais frias. "Elas ficavam com 10% de comissão sobre o valor das notas e devolviam o resto do dinheiro." O ex-diretor afirmou que ele era o encarregado de coordenar a entrega do dinheiro para seus "verdadeiros donos". Conforme seu relato, uma parte voltava para contas da empreiteira, e o resto servia para pagar as propinas. "Eu calculava os valores, orientava para que contas correntes o dinheiro deveria ir." De acordo com os documentos apresentados por Oliveira, uma das empresas fantasmas para a qual a Mendes Júnior enviou cheques é a Pau Brasil, do pianista João Carlos Martins, a mesma que no passado arrecadava fundos para a campanha de Maluf.

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Os documentos apresentados pelo ex-diretor da Mendes Júnior e seu depoimento não podem ser traduzidos automaticamente em provas. As peças só fazem sentido quando vistas em perspectiva. O ex-prefeito Paulo Maluf transformou a cidade de São Paulo em um canteiro de obras. Em quatro anos ele gastou mais de 7 bilhões de reais na construção de viadutos, pontes e avenidas. As sete grandes empreiteiras do país conquistaram obras grandes em sua gestão. Raridade nesse mercado, os pagamentos eram sempre feitos em dia. O curioso é que durante a gestão Maluf o preço desses serviços subia em razão de seguidos aditamentos. Sua administração deixou três símbolos do superfaturamento: o Túnel Ayrton Senna, a Avenida Águas Espraiadas e a Avenida Jacu-Pêssego. O orçamento inicial para a execução desses projetos foi de 400 milhões de dólares. Acabaram custando quatro vezes mais: 1,7 bilhão de dólares. O caso mais escandaloso é o da obra de canalização do córrego da Águas Espraiadas. O projeto começou orçado em 78 milhões de reais e acabou em 783 milhões – dez vezes mais.

Oliveira afirmou aos promotores que esteve poucas vezes com Paulo Maluf, mas jamais tratou de dinheiro com o ex-prefeito. Pessoalmente, o ex-diretor da construtora se encontrou com o ex-tesoureiro das campanhas malufistas, morto em 1999, Calim Eid e também com o ex-secretário de obras da prefeitura Reynaldo de Barros. "Estive três vezes com Calim Eid e nas três lhe entreguei dinheiro. Numa ocasião, dei a ele um pacote com 300.000 dólares. Eu tinha a orientação de levar o dinheiro dentro de caixas de uísque ou de bombons." O encontro com Reynaldo de Barros ocorreu em companhia do diretor-geral da Mendes Júnior, Sidnei Lobo da Silva, que permanece no cargo. Segundo o relato feito aos promotores, Silva entregou ao secretário um pacote de dinheiro. "Eu mesmo havia embrulhado o dinheiro", conta Oliveira. Essas propinas pagas pessoalmente, lembra o ex-diretor, referem-se às miudezas, evidentemente. O grosso do dinheiro era transferido para o exterior por via bancária ou por intermédio de doleiros. As contas que recebiam os depósitos, relata Oliveira, lhe eram indicadas pelo diretor-geral.

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Foto: Renata Ursaia

Reynaldão, que pagava as empreiteiras em dia: helicóptero após a gestão de Maluf

A denúncia de Oliveira vem a público num momento político especial na vida de Paulo Maluf. Primeiro colocado nas pesquisas para governador de São Paulo, Maluf está com 31% das intenções de voto, 9 pontos porcentuais à frente do segundo colocado, o governador Geraldo Alckmin. É também um momento delicado no aspecto jurídico. Há dois anos, os promotores investigam Maluf pela acusação de manter contas secretas no exterior cujo saldo seria proveniente de desvios irregulares de dinheiro público. De acordo com os números divulgados, o saldo dessas contas seria da ordem de 200 milhões de dólares. A investigação começou quando uma quantia expressiva atribuída a Maluf deixou a Suíça rumo ao paraíso fiscal da ilha de Jersey, num padrão muito acima do normal. Detalhe importante: o nome de Maluf surgiu nas discussões por intermédio de técnicos estrangeiros, e não de simpatizantes do PT ou do PSDB.

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Recentemente se descobriu que fundos oriundos justamente de Jersey fizeram uma aplicação significativa, cerca de 90 milhões de dólares, na compra de debêntures da Eucatex, empresa da família Maluf. Os promotores investigam se o dinheiro aplicado na Eucatex não seria do próprio Maluf.

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Foto: Caco de Paula

Pista de pouso na fazenda de Reynaldão: 15 000 reais por mês para manter piloto e avião

Procurado por VEJA para comentar mais essa denúncia, o ex-prefeito não quis falar. A resposta coube aos advogados. Ricardo Tosto, que defende Maluf, afirmou ter sido procurado há algumas semanas por um colega, Pedro Lessi, advogado do ex-diretor financeiro da empreiteira. No encontro, Lessi informou a Tosto que possuía um dossiê que interessava a Maluf e pediu um encontro de seu cliente com o ex-prefeito. Não se falou em dinheiro na ocasião, mas Lessi avisou que as informações contidas na documentação poderiam prejudicar Maluf caso fossem divulgadas. "Essa conversa é própria de um desqualificado", afirma Tosto. Na semana passada, VEJA também procurou a Mendes Júnior, que acionou o jornalista Carlos Brickmann para falar em seu nome. Sua versão dos fatos é que a empreiteira está sendo vítima de uma chantagem. Em agosto de 2001, a Mendes Júnior registrou na polícia uma queixa de extorsão. Consta no inquérito, aberto em São Paulo, que o ex-diretor teria exigido 6 milhões de reais em troca da não-divulgação de papéis. Brickmann informa que a empreiteira recusou a proposta. "Fazemos tudo 100% dentro da lei", diz o jornalista.

O que espanta nesse caso é a audácia do ex-diretor. Ele admite ter tentado um contato com Maluf e também ter pedido dinheiro para a empreiteira. Significa que, se nada do que diz for comprovado, ele será processado e estará em apuros. Mesmo assim, Oliveira não muda o tom dos ataques. "Eu sei do que estou falando. Eu cuidava do caixa dois. Eu paguei propina. Eu entreguei pacotes com dinheiro", diz.