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Foto: ANDRÉ DUSEK |
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O FIO DA MEADA Na edição passada, ISTOÉ mostrou as tentativas de
Chelotti de enredar o chefe da Casa Militar, o general
Cardoso, e o ministro Renan Calheiros, no grampo do BNDES;
agora, Carta Capital liga o policial a uma rede de
escutas telefônicas |
E S C
 N D A L O
Xerife sob
suspeita Grampos revelam como diretor da Polícia
Federal usava escuta para manter poder
EDUARDO HOLLANDA E MINO PEDROSA
Engaiolaram o corvo. Em quatro anos no cargo, o diretor-geral da
Polícia Federal, Vicente Chelotti, passou da condição de
ex-sindicalista à de figura intocável da República graças a um
poderoso arsenal de segredos do poder, acumulados com métodos pouco
ortodoxos, como mostrou o escândalo do Sivam, no qual agentes da PF
grampearam assessores do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Chelotti agora não deve ficar por muito tempo no cargo. Caiu na
arapuca que costuma montar para os outros. A revista Carta
Capital, que circulou na última sexta-feira 26, revelou que nem
o xerife da PF consegue escapar ileso da bisbilhotice dos arapongas
sob o seu comando. Publicou uma série de diálogos, colhidos de um
conjunto de 38 fitas de conversas entre Chelotti, chefes e agentes
da PF, grampeadas dos telefones de Celso Lemos, assessor que, apesar
de licenciado por suspeita de desvio de verba pública, continuava
atuando como homem-forte, instalado no gabinete ao lado de seu
chefe.
Segundo a revista, os telefonemas contêm tramóias da cúpula da PF
para manter sob controle a investigação do grampo no BNDES. Celso
Lemos envolve-se em brigas sobre partilha de comissões em negócios
com precatórios. Chelotti faz também bravatas sobre a sua capacidade
de manter-se no poder, apesar das trocas de guarda no Ministério da
Justiça e dos inúmeros inimigos colecionados na Esplanada dos
Ministérios. "Aqui é macho, macho", gaba-se, em um trecho onde
comenta o fato de o ministro da Justiça, Renan Calheiros, não ter
conseguido tirá-lo do cargo. Em outro, o diretor da Polícia Federal
refere-se assim ao seu antigo superior hierárquico Iris Resende,
ex-ministro da Justiça: "Eu já conhecia ele como ministro da
Agricultura. Ah, dou-lhe três tapas."
Chelotti, que se vangloria de "ter na mão" o presidente por
possuir gravações comprometedoras contra FHC, diz que as gravações
entregues à Carta Capital foram editadas. "Essas frases foram
ditas em conversas com amigos, mas estão incompletas. Em todos os
trechos, falta a primeira parte. Sempre pergunto: ‘Até quando vão
continuar com essa história de que eu tenho o presidente na mão?’",
alegou Chelotti, na mesma sexta-feira 26. Apesar do desmentido, o
diretor da PF, rápido no gatilho, tratou de demitir Celso Lemos.
Chelotti acusou também o ex-chefe da Divisão de Entorpecentes Marco
Antônio Cavaleiro de estar por trás dos grampos. "Desde junho, sabia
que a divisão tinha grampeado os telefones da diretoria. Na época,
Cavaleiro justificou que tinha havido um engano porque estavam
investigando alguns funcionários." Cavaleiro, recém-exonerado por
Chelotti, trabalha hoje como assessor do senador Romeu Tuma
(PFL-SP), mas não foi encontrado para rebater a acusação.
A hipótese de que o grampo seja resultado da disputa entre
facções rivais pelo poder dentro da PF é mais do que provável. ISTOÉ
obteve a informação de que a escuta foi feita por agentes ligados à
Federação Nacional dos Policiais Federais, que está em campanha
aberta pela destituição de Chelotti. No último número do Jornal
dos Federais, um editorial prega a demissão do diretor da PF por
causa da "administração catastrófica". Ele, que foi líder sindical
antes de assumir o comando, só tem hoje o apoio dos sindicatos do
Distrito Federal e do Piauí para manter-se no cargo. "Chelotti está
sendo vítima do mesmo esquema sindicalista que o levou ao poder",
observou um graduado assessor de FHC. No lugar do atual xerife, a
corporação gostaria de ver dois nomes: Nascimento Paulino, que foi o
segundo do órgão na gestão de Romeu Tuma, ou Bergson Toledo, atual
superintendente em Alagoas. Bergson está em alta por um motivo
simples. É amigo de longa data do ministro da Justiça, Renan
Calheiros, que, apesar de desejar isso até agora não teve força para
derrubar Chelotti, como revelou ISTOÉ na edição passada.
A briga promete. Chelotti mandou abrir um inquérito para
descobrir os responsáveis pelo grampo. Independentemente do
resultado das investigações, é possível que agora Calheiros ganhe o
pretexto que precisa para substituí-lo. É inadmissível que a escuta
telefônica, que só pode ser feita com autorização da Justiça ou em
situações em que a segurança do Estado esteja comprometida, se
banalize a ponto de virar instrumento para guerra de poder entre
correntes corporativas. "Essa zorra não pode continuar", desabafou
um assessor presidencial. O ministro da Justiça ganhou até um
poderoso aliado. O presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães
(PFL-BA), não gostou de saber que Chelotti investigou, como parte do
caso da Pasta Rosa, denunciado por ISTOÉ em dezembro de 1995 a
existência de uma sociedade entre ele e o ex-banqueiro Ângelo Calmon
de Sá na empresa Allied-Trans World Trade Company, das Ilhas Cayman.
"Desafio qualquer brasileiro a falar sobre minha moral. É uma coisa
tão cínica e tão boba que não posso tratar", irritou-se ACM,
negando-se a comentar o assunto.
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